Chico da Silva: obras de sua última fase são destaques da mostra que celebra o centenário do artista, no espaço Cultural Correios. Trabalhos são marcados pelo uso do preto
FOTOS: DIEGO MORENO
Obra do artista Chico da Silva, datada de 1980. A preferência pelos cenários pretos em sua fase madura não fizeram o pintor abrir mão das figuras multicoloridas de animais exóticos
18/11/2010
Abre hoje, no Espaço Cultural Correios, a exposição "Chico da Silva - O Renascer 100 anos". Mostra reúne obras da última fase da produção do artista
O pintor e desenhista Chico da Silva, morto em1985 e que, segundo alguns pesquisadores completaria 100 anos em 2010, é o protagonista de uma exposição que entra em cartaz hoje, no Espaço Cultural Correios. "Chico da Silva - O Renascer 100 Anos" conta com cerca de 20 peças do artista, que ficou famoso por seus quadros multicoloridos, retratando bichos exóticos e usando o método do pontilhismo. "O acervo pertence a Lincoln Machado, cearense, e um dos maiores colecionadores das obras de Chico da Silva no Brasil", explica Roberto Galvão, curador da mostra e coordenador geral do Instituto Olhar Aprendiz, responsável pela iniciativa.
A maior parte das telas expostas nos Correios são da última fase do artista, marcada por cores escuras e fundos negros. A obra de Chico da Silva pode ser dividida em três fases: a primeira, iniciada por volta dos anos 40, bastante agressiva. Nos anos 60, seu trabalho se torna mais leve e agradável. A terceira e última, de meados dos anos 70 até sua morte, em 1985, torna-se uma pintura mais pesada e obscura. "A exposição tem trabalhos de todas as fases, mas os desta última são maioria", ressalta Weaver Lima, um dos produtores da mostra.
Weaver acredita que o uso de cores mais escuras por Chico da Silva seja o resultado de um amadurecimento artístico de alguém que estava descobrindo possibilidades para seu trabalho. "Digo isso porque, apesar do lado sombrio, há mais harmonia nas telas", declara. Ao mesmo tempo, o produtor diz que é "complicado" relacionar o tom sóbrio das obras com uma fase de dificuldades do artista. "Afinal, a vida toda dele foi de dificuldades. Ele nunca foi rico, mesmo tendo vendido bastante", acrescenta Lima.
Ele ressalta que Chico da Silva ganhou destaque internacional como um dos maiores expoentes da arte primitiva do mundo, tendo sido tema de reportagens e artigos publicados na imprensa mundial com o respaldo do pintor suíço Jean-Pierre Chabloz, um de seus maiores entusiastas. "É uma pena, portanto, que o trabalho dele não seja valorizado e promovido como merece no Brasil. Falta uma promoção do seu nome. Basta ver o que países desenvolvidos fazem com os seus artistas", destacou.
Sucesso
Era comum na década de 70 encontrar uma obra de Chico da Silva ou de seus assistentes nas residências de Fortaleza, pois sua arte teve grande aceitação popular. Entre as características mais marcantes na obra do artista, Galvão destaca primeiramente o colorido intenso, "que só seria possível numa terra com a luz do Ceará".
O pontilhismo, a maneira de aplicar as cores em pontos, e não na superfície plana inteira, também é marcante. Outra característica dele é o tema. "Embora a gente veja, numa primeira leitura, os bichos exóticos, numa segunda leitura, a gente pode ver que é uma luta. Toda a produção do Chico da Silva é sobre a luta pela sobrevivência. Geralmente são bichos se devorando, brigando", descreve.
Galvão reforça que Chico dizia pintar para jogar para fora o que tinha na cabeça, os monstros que o atormentavam. "É mais ou menos isso. Ele pinta para poder acalmar a mente", avalia. Como todo artista que vem das camadas mais pobres, Chico da Silva teve dificuldade de reconhecimento, mas descobriu ainda em vida o prestígio por sua obra.
"Não era comum se reconhecer artistas primitivos como artistas realmente importantes. O reconhecimento dele aqui se deve a um certo reconhecimento internacional", considera Galvão, destacando em seguida que Chico é um dos primeiros artistas primitivistas a serem reconhecidos no Brasil.
Biografia
Francisco Domingos da Silva nasceu no Acre, numa região denominada Alto Tejo, em plena floresta Amazônica. Ainda criança transferiu-se para a terra natal de sua mãe, passando a residir em Quixadá (CE). Em 1937, trabalhou como pintor de paredes e muros em Fortaleza. Surgiram aí pássaros, dragões e figuras marinhas que viriam a encantar o pintor suíço Jean Pierre Chabloz, quando de sua estada em Fortaleza, em 1943.
Conduzido por Chabloz, Chico da Silva expõe pela primeira vez em 1944, no III Salão Cearense de Pinturas. Entre os anos de 1949 e 1956 seus trabalhos foram expostos em diversas galerias mundo afora.
Com a implantação do Museu de Arte da Universidade Federal do Ceará (UFC), Chico é contratado, o que lhe proporciona novos horizontes e possibilidades profissionais.
Chico toma contato com um novo mundo e desperta para o valor artístico de seu trabalho. Sua arte era aceita pela burguesia e existia imensa procura por suas obras. A revista francesa Caiher d´Art dedica-lhe uma reportagem de oito páginas e sua carreira internacional continua com exposições em Paris e com a mostra Artistas Primitivos Brasileiros que percorreu várias cidades europeias, chegando a Moscou.
Em 1966 Chico da Silva é incluído na delegação brasileira que representou o Brasil na Bienal de Veneza, tendo obtido o prêmio de "Menção Honrosa", a despeito de todo o preconceito por parte dos outros membros da comitiva, que não concordavam com a outorga de tão importante distinção a um "índio analfabeto e bêbado".
Com o prêmio de Veneza Chico transformou-se numa "galinha dos ovos de ouro". Para atender à demanda, ele passou a contar com a colaboração de assistentes que formaram a chamada "Escola do Pirambu" - uma oficina de produção artística reunindo um pequeno grupo de adolescentes na realização, em trabalho coletivo, de pinturas num estilo desenvolvido a partir das obras do próprio Chico da Silva.
Considerado o pintor primitivista mais importante do Brasil, Chico da Silva conseguiu em vida grande aceitação popular de sua arte. A notoriedade lhe trouxe, entretanto, muitos dissabores e incompreensões levando-o a uma vida atribulada, marcada por escândalos e financeiramente instável.
Morto em dezembro de 1985, a sua obra continua reverberando e encantando a todos que têm a oportunidade de conhecê-la.
MAIS INFORMAÇÕES
Exposição "Chico da Silva" - No Espaço Cultural Correios (Rua Senador Alencar, 38, Centro), até 18 de dezembro. Contato: (85) 3255.7100
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