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domingo, 6 de novembro de 2011

COMODISMO E DESESPERO

       O processo de desenvolvimento e formação do ser humano se dá fatalmente em algum contexto social, não sendo este fatalmente determinante, mas, capaz de influenciar fortemente, restando aí também à possibilidade de agir diferentemente do lugar que está inserido. 
O conceito de lugar, tão caro aos geógrafos de hoje, é o que identifica o sujeito a determinados espaços e territórios. É lá onde ele desenvolve suas ações sociais, troca experiências e (re)produz um modo de vida. Como já foi dito, é necessário preservar uma idéia de liberdade, pois é nesse espaço que as mudanças culturais ocorrem. De outro modo, toda e qualquer sociedade estaria estagnada.
Quando desenvolvemos os pressupostos básicos acima, fica mais fácil comentar as categorias subseqüentes, caso tenha a necessidade de deixar claro o que queremos dizer. O que me refiro a partir de agora são às constatações e reclamações tão comuns pelos articulistas deste e de tantos outros blogs da região, além da minha própria. Nesse meio, não podemos nos furtar à percepção advinda do meio acadêmico, que é, talvez, a que tem formado a maior parte das “opiniões”. Tais posicionamentos se referem as mais diversas abordagens sobre a sociedade, desde a perspectiva artística a econômica. Porém, de um modo geral, pode-se dizer que passamos por péssimos momentos em todos eles. Facilmente observamos a cara de espanto como articulistas mais velhos têm em relação à gravidade da degradação intelectual e moral no Brasil nestes últimos cinqüenta anos. A perda de uma perspectiva histórica alienou o brasileiro assim como alienaria qualquer outra sociedade, pois, uma vez que retiramos a possibilidade de análise comparativa de alguém, retiramos “toda” sua possibilidade de evolução. 
Uma vez que o processo educativo que vem a produzir o que chamamos de “Alta Cultura” é todo desenvolvido através de uma rigorosa absorção dos clássicos, que vão da filosofia, as artes visuais, da música a sociologia, da literatura a teoria política, que se harmonizam e se reproduzem no ser humano como ação individual (em não em bloco, como os ideólogos disfarçados de educadores fazem hoje), estão totalmente fora das políticas de educação do país, pode-se concluir que a única possibilidade de mudarmos o atual quadro partirá, caso de fato aconteça, por meio de ações individuais. Portanto, é você, o leitor que indigna-se, ao ver que o Brasil tem um dos piores índices de educação do mundo que poderá mudar esse quadro. Normalmente a angústia diante de uma visão aterradora como está nos dá a tentativa de ação em conjunto. Pensar que o número faz a força é um raciocínio instintivo e demasiadamente primitivo em alguns casos. É o que na Grécia antiga chamaríamos de topoi, lugar comum. Fica claro que nem sempre essa conduta é a melhor a ser adotada em todos os casos. Tem-se que levar a conta que o que se quer desenvolver seja “Alta Cultura” fatalmente não será para todas as pessoas, e, talvez nem para você mesmo. Só que neste caso, você pode arriscar e tentar ver até que ponto estruturante poderá desenvolver em sua alma tal empreendimento, correndo assim os riscos e falhas sujeitas no processo. O que torna-se demasiadamente complicado é quando, ao tentar atuar em conjunto (em favor das causas sociais por exemplo) você arrisca a vida de outras pessoas que teoricamente confiam em sua competência.
A ideia mais clara sobre isso que podemos exemplificar é o meio que a coação do Estado nos faz ter que entregar nossos filhos para alheios, onde supostamente serão educados – nos dando a 53ª posição no ranking, atrás da Colômbia, Trinidad e Tobago e Tailândia, mesmo falsificando todos os dados possíveis a respeito dos índices de aprovação -. A possibilidade de uma educação através da iniciativa privada poderia ser uma solução, porém, esta também, sem nenhuma estrutura moral digna que tenha forças para encarar tamanho desafio prosta-se diante da coação do Estado mais uma vez. Dizem: - As melhores faculdades são públicas (sic)! Eles quem detêm o processo seletivo. Deste modo, tudo o que seria “educação” fica sujeito a tal processo. Observe bem que, se analisarmos a história do conceito de educação, em nenhuma hipótese, tivemos um estágio tão humilhantes como agora, onde um sujeito ou entrega de imediato sua educação nas mãos abstratas do Estado e sofre suas conseqüências concretas, ou entrega-se para iniciativa privada que, no máximo, lhe deixa apto a submeter-se a um vestibular, controlado para variar, pelo Estado.  Essa violência silenciosa tira toda a perspectiva de modificação de um país que só poderá ser modificado pela educação. Os investimentos econômicos assim como a melhoria de seus índices, são sempre vôos de galinha, sem a capacidade de manutenção por um período mais rigoroso, uma vez que a economia cresce, vemos paralelo a isso um péssimo índice de educação, saúde e violência. 
Não quero aqui reduzir e simplificar a importância do desenvolvimento econômico e comercial do país, porém, não é através disso que haverá de fato alguma mudança. Dar melhores condições econômicas a um povo sem nenhuma educação não é garantia nenhuma, além da sua subsistência. É aí apenas uma garantia biológica, no sentido mais estrito do termo. A cultura é a base de qualquer sociedade e somente através de mudanças e investimentos nesse aspecto, onde o mesmo detêm elementos como a economia, a religião, a linguagem, entre tantos outros, é que veríamos, daqui a três ou quatro gerações, alguma mudança. Como o leitor pode observar, os investimentos que temos pelo menos nos últimos cinqüenta anos só ocorreu em alguns pontos isolados, não dando a possibilidade de articulação e nem de conjunto. Quando uso a palavra “conjunto”, não me refiro a tentativa comum de pasteurizar as consciências, como é o que já vem ocorrendo, mas sim a tentativa de garantir e restaurar a noção de individualidades, onde a existência das mesmas pode atuar de modo harmônico dando-nos resultados melhores.
Para isso torna-se urgente resgatar e priorizar o que já foi perdido e contabilizar quais os pontos fundamentais que estamos corrompidos. Talvez seja a hora de cortar na carne e acabar com o amadorismo de muitos em salas de aula, acabar com a politização da educação pois nem só de política e de supostas “consciências críticas” viverá o homem. A religião e a linguagem devem ser restauradas urgentemente assim como o vigor dos clássicos da literatura. Sem o estudo rigoroso das artes não se desenvolve o imaginário de uma sociedade. O homem só é homem, não pela sua simples capacidade de raciocínios lógicos, coisa que até um orangotango faz, mas, sobretudo pela sua capacidade de imaginar. Uma sociedade com seu imaginário corrompido pela classe de pseudo-artistas está fortemente comprometida. Não estamos no luxo dos anos 60 quando filósofo Mário Ferreira dos Santos nos anunciou: - “Os bárbaros chegaram aos portões”.  Não só chegaram como agora os servimos submissos. Eles tomaram de conta dos governos, escolas, universidades enfim... A pergunta que não quer calar é: Até quando os bárbaros poderão virar diretores de escolas, políticos, professores, “artistas”?
A primeira coisa que me vem à mente a essa altura é a obra do filósofo Louis Lavelle, em seu livro “A Presença Total”, onde o mesmo nos dá a responsabilidade de ter um modo de vida de fato presente nas circunstâncias que de fato vivemos. Encarar a realidade é a única forma de viver dignamente. Ortega y Gasset nos fala que as únicas ideias de fato verdadeiras são aquelas do náufrago que, uma vez sabendo que nada de resta estando ele agarrado apenas a uma tábua... É nesta precisa hora que nos interessa saber quais pensamentos estão presentes, pois assim, em um ponto crítico da vida, só restarão os pensamentos mais verdadeiros, essenciais, fundamentais para sua existência. Estando nesse ponto crítico onde divido que exista situação cultural pior, qual seria nossa atitude diante da “Presença Total”, qual seriam as “Idéias do Náufrago”? 

domingo, 25 de setembro de 2011

Quero meu país de volta - Bruno Tolentino

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita.

Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Chair. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil As Horas de Katharina, e no fim do ano passado mais dois, Os Deuses de Hoje e Os Sapos de Ontem — todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador José Guilherme Merchior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:

VEJA — Por que tantas brigas ao mesmo tempo?

TOLENTINO — Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.

VEJA — Por que não?

TOLENTINO — Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.

VEJA — Qual o problema?

TOLENTINO — Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.

VEJA — Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?

TOLENTINO — Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.

VEJA — O que você tem contra a música popular?

TOLENTINO — Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

VEJA — O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.

TOLENTINO — Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio, achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.

VEJA — Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?

TOLENTINO — Não sabem inglês, nem alemão nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase “ele tem um pássaro”, que é literal, mas que, em alemão, quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.

VEJA — Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?

TOLENTINO — Na República das Letras, ainda estamos à espera das diretas-já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades, prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se, matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, de que, em Lilliput, só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: “Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”. Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras, e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: “Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e…” É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?

VEJA — Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?

TOLENTINO — O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e — como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? — o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.

VEJA — Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?

TOLENTINO — A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.

VEJA — Caramba… Não sobra nenhum crítico brasileiro?

TOLENTINO — Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim…

VEJA — O senhor também não sobra?

TOLENTINO — Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos críticos e poetômanos. Infelizmente, ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.

VEJA — Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?

TOLENTINO — Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.

VEJA — O senhor poderia dar exemplos disso?

TOLENTINO — Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. “Faz a melhor imitação de poesia que já li”, dizia. Parecia piada, mas não era.

VEJA — O senhor acha que a imitação é ruim?

TOLENTINO — A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.

VEJA — Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?

TOLENTINO — Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.

VEJA — Então as universidades não servem para nada?

TOLENTINO — A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.

VEJA — O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?

TOLENTINO — O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil “ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas”, como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos “grandes centros” produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o “rigor” (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.

VEJA — Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado…

TOLENTINO — É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.

VEJA — Tem a ver com o quê?

TOLENTINO — A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.

VEJA — O senhor não está exagerando, sendo duro demais?

TOLENTINO — Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.VEJA — Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país… TOLENTINO — O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.

VEJA — Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?

TOLENTINO — Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.