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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Quero o país de volta - Entrevista com Bruno Tolentino

O poeta que passou trinta anos na Europa se diz horrorizado com o baixo nível, acha que o país regrediu e parte para a briga



Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita. Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Char. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil As Horas de Katharina, e no fim do ano passado mais dois, Os Deuses de Hoje e Os Sapos de Ontem - todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.
Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador José Guilherme Merquior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:


VEJA - Por que tantas brigas ao mesmo tempo? 
TOLENTINO - Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui. 

VEJA - Por que não? 
TOLENTINO - Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business. 

VEJA - Qual o problema? 
TOLENTINO - Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira. 

VEJA - Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros? 
TOLENTINO - Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura. 

VEJA - O que você tem contra a música popular? 
TOLENTINO - Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia? 

VEJA - O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles. 
TOLENTINO - Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles. 

VEJA - Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês? 
TOLENTINO - Não sabem inglês, nem alemão, nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase "ele tem um pássaro", que é literal, mas que em alemão quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber. 

VEJA - Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas? 
TOLENTINO - Na República das Letras ainda estamos à espera das diretas já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, que em Lilliput só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: "Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem". Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: "Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e..." É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar? 

VEJA - Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins? 
TOLENTINO - O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e - como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? - o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras. 

VEJA - Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião? 
TOLENTINO - A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato. 

VEJA - Caramba... Não sobra nenhum crítico brasileiro? 
TOLENTINO - Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim... 

VEJA - O senhor também não sobra? 
TOLENTINO - Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos crititicos e poetômanos. Infelizmente ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu. 

VEJA - Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta? 
TOLENTINO - Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura. 

VEJA - O senhor poderia dar exemplos disso? 
TOLENTINO - Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. "Faz a melhor imitação de poesia que já li", dizia. Parecia piada mas não era. 

VEJA - O senhor acha que a imitação é ruim? 
TOLENTINO - A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir. 

VEJA - Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades? 
TOLENTINO - Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa. 

VEJA - Então as universidades não servem para nada? 
TOLENTINO - A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura. 

VEJA - O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras? 
TOLENTINO - O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil "ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas", como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos "grandes centros" produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o "rigor" (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi. 

VEJA - Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado... 
TOLENTINO - É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso. 

VEJA - Tem a ver com o quê? 
TOLENTINO - A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono. 

VEJA - O senhor não está exagerando, sendo duro demais? 
TOLENTINO - Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria. 

VEJA - Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país... 
TOLENTINO - O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest. 

VEJA - Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República? 
TOLENTINO - Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.

Fonte: Revista Veja

terça-feira, 30 de abril de 2013

Cultura, alta cultura, literatura: um Brasil sem referências


ESCRITO POR LORENA MIRANDA | 29 ABRIL 2013 
ARTIGOS - CULTURA

Ao longo de sua história, a humanidade sempre encontrou motivos para caracterizar cada época de seu desenvolvimento como “essencialmente diferente das demais” – pois o mais provável é que assim o fosse.
Cada sociedade – modernamente digamos: cada país – tem uma face peculiar num dado momento do tempo. Isto é a base da refutação daquela crítica segundo a qual “desde sempre o homem lamenta sua condição no mundo; não há nada de novo em se apontar problemas no que quer que seja”. Ora, de fato, a crítica dos arredores é natural à condição do homem de ser racional e desde os primórdios de suas atividades intelectuais os homens se debruçam sobre o problema dos males no mundo. Mas é preciso assinalar este outro fato: cada momento na história – bem como cada geração em cada particular localidade – apresenta problemas que não se confundem com aqueles gerais da época ou com os que vieram antes, embora necessariamente relacionem-se a estes. Por isso não há nada mais legítimo do que os representantes de cada geração, em cada sociedade ou país, dedicarem-se à crítica de seus arredores mais imediatos, pois certamente encontrarão aí algo de novo a que as críticas anteriores não se podiam reportar.
Este texto tem duas premissas: 1) pensar o Brasil de hoje consiste em identificar os particularíssimos problemas que caracterizam nossa presente sociedade e a localizam dentro do momento histórico global; 2) pensar qualquer sociedade consiste enormemente na análise de seus fatos culturais: antes das instituições políticas e das leis, e seguindo o curso do comportamento típico da sociedade – valores, crenças, opiniões – num dado momento do tempo, tem-se, como um espelho deste, a cultura.
Qual o estado da cultura brasileira atual? O que salta aos olhos quando nos fazemos essa pergunta é um fato impressionante: a ausência cabal, no Brasil de hoje, daquilo que se chama alta cultura. Perceba o leitor que aimportância dessa constatação reside em que nela se condensa aquilo que seria o nosso “particularíssimo problema”. Poderíamos igualmente destacar entre nossos males a desonestidade de nossa classe política ou a imoralidade que se vem tentando oficializar legalmente, na esteira de vir ganhando cada vez maior circulação entre o povo. No entanto, esses são problemas que se inserem numa grade de tendências mais ou menos globais. Num país como os Estados Unidos, apesar de o governo estar refém de um programa partidário tão pernicioso quanto o brasileiro, ainda há a dita alta cultura. Mas entre nós… O que se passa?
Entenda-se por alta cultura todas aquelas obras da criatividade humana em que o momento histórico no qual se inserem, bem como os legados da humanidade como um todo, são traduzidos simbolicamente, atendendo a critérios estéticos elaborados pela tradição dos gêneros artísticos; uma obra de arte digna de nota deve remeter-se à tradição que a precede (sejam romances, quadros, peças musicais), não necessariamente filiando-se a ela, mas de algum modo respondendo a ela, ainda que para negá-la. Ora, a principal característica da cultura brasileira atual é um profundo desconhecimento das tradições artísticas, não digo nem do Ocidente, mas mesmo do próprio Brasil, variando da ignorância total ao domínio capenga daqueles critérios estéticos necessários à composição de qualquer obra que almeje um diálogo ativo com os cânones.
Em verdade, associada à parca educação da classe incumbida de produzir nossa alta cultura (a relação de distância quanto às tradições artísticas redunda em falta de educação), verifica-se uma acachapante falta de ambição da parte do artista brasileiro contemporâneo. Isto pode soar contraditório, quando o que mais vemos por aí são homens e mulheres alardeando seus talentos artísticos, seja em revistas culturais (que não são poucas entre nós), em blogs, na televisão ou mesmo pelas ruas.
De fato, a julgar pelas aparências, um marciano que ainda não dominasse em profundidade o conceito de alta cultura acreditaria ter no Brasil um verdadeiro caldeirão cultural, páreo para uma Inglaterra renascentista ou uma Rússia do século XIX. Mas a verdade é que por trás de tanto barulho pouco de efetivamente relevante se salva. E, se assim o é, isto se pode creditar em grande medida à falta de ambição do artista brasileiro: o que em princípio é mera ignorância da tradição torna-se logo em programa de trabalho, e imediatamente se têm manifestos exaltando a espontaneidade, a instantaneidade e a falta de seriedade do que deviam ser obras de arte. Ou seja, o artista brasileiro contemporâneo não almeja um diálogo com os cânones, ao menos não enquanto continuador consciente deles, enquanto autor do que a contemporaneidade legará de canônico ao futuro. Se se disser a um jovem poeta brasileiro que ele escreve pior do que Camões, ele fará uma cara de espanto e dirá “Mas é claro! É Camões!”, ou talvez nem se precise ir tão longe: peça-se ao jovem poeta para competir com um Manuel Bandeira, com um Carlos Drummond, e ele retribuirá com um olhar quase ofendido – ofendido em nome de seus intocáveis predecessores, sobre os quais é sacrílego supor que possam ter nos dias de hoje quem os desafie. E, no entanto, há outro modo de se produzir alta cultura?
Façamos, em tempo, a distinção fundamental entre cultura e alta cultura. Evidentemente, esta está contida naquela. Venho tratando por alta cultura tudo aquilo que, dentro do bojo comum das manifestações da personalidade de um povo – a cultura –, destaca-se pelo refinamento de sua composição e por não ser apenasreflexo do momento cultural, mas que traga em sua estrutura algo de autoconsciência e autocrítica. É essa característica autoconsciente que permite a alguns artistas transcenderem seu momento sociocultural, sendo capazes, entre outras coisas, de parodiá-lo, mesmo estando inseridos nele. Tal capacidade de distanciamento só é possível quando já se empreendeu um verdadeiro estudo do objeto o qual se deseja retratar; do contrário, no caso desse objeto corresponder à realidade circundante, o máximo que se consegue é determinar-se por ele.
O que ocorre no Brasil de nossos dias é justamente a redução da arte ao espontâneo impensado, ou, em outras palavras: há uma contaminação da alta cultura pela cultura, não sendo demasiado identificar mesmo uma total substituição daquela por esta. Um exemplo notório disso é serem tomadas por poesia as letras de canções populares que, como insistia fervorosamente Bruno Tolentino, podem ter muito de poético, mas estão um tanto aquém do poema propriamente dito.  Acontece que a poesia hoje foi reduzida ao status de texto de teor confessional, onde se dá arbitrariamente uma disposição vertical a linhas de prosa quebradas, texto esse que, musicado ou não, não apresenta qualquer particularidade em relação à letra de música. Já a musicalidade própria da poesia, obtida nos metros ritmados e de jogos de rima, é considerada um belo arcaísmo, coisa difícil demais de se fazer, pois demanda estudo, treino e, evidentemente, tempo – o que vai contra as regras da espontaneidade desleixada do poeta contemporâneo.
A literatura é, por excelência, o veículo onde se cristalizam as características de uma sociedade num dado momento. Em seus melhores exemplares, ela não é um mero espelho, mas, como dito anteriormente, apresenta uma visão crítica da realidade que nela se reproduz, o que implica dizer que a boa literatura ajuda acompor a realidade, modificando-a. Daí seu papel crucial para o desenvolvimento das sociedades, pois sintetiza e avalia seus valores e dá ao povo um auto-retrato que nunca deixa de influenciar a psique coletiva.
Cabe-nos então olhar para a arte brasileira contemporânea, dando especial atenção à literatura e perguntando a partir dela: quem somos nós? Porém, eis o dilema: no Brasil deste início de século XXI não há uma literatura que nos represente, que dê conta de nos mostrar enquanto totalidade de um povo, expondo nossas contradições e assinalando nossos pontos fortes, de modo que nela o brasileiro tenha a condensação de sua essência.
Nossa prosa recente, que sai dos blogs para os livros impressos sem perdas ou ganhos, é presa de um subjetivismo inócuo, focalizando protagonistas sem raízes, de todo indiferentes ao fato de pertencerem a circunstâncias maiores que seus umbigos. Quando olhamos para a grande literatura universal – digamos, os gênios russos do século XIX –, vemos, pelo contrário, um esforço incansável da parte dos autores para situar suas personagens no momento histórico, sem com isso comprometer a análise psicológica e a descrição de ambientes imediatos. Mas o jovem ficcionista brasileiro parece recusar-se a tal esforço intelectual e imaginativo; prefere seguir o jorro de uma escrita automática, disfarçada de pós-modernismo combativo, sendo que, até este momento, tudo que tem logrado combater é aquela dama agonizante chamada Literatura Brasileira, que há pelo menos duas gerações não dá o ar da graça pelas bandas daqui.[1]
E, no entanto, raras vezes se viu ausência tão eloquente, capaz, ironicamente, de dizer mais sobre o que somos hoje do que a ficção que tantos escrevem sem obter resultados. Somos, pois, isso: uma sociedade sem autoconsciência, sem superego e totalmente entregue à preguiça dos automatismos do momento.

Nota:

[1] Não há quaisquer exceções? Há, sim; pouquíssimas e notadamente frutos de esforços isolados, que conseguem despontar à revelia do meio cultural geral. Mas, para os fins deste texto, é melhor não alentar o leitor com as exceções: ganhamos mais mantendo o cenho fechado e as esperanças em suspenso, pois em estado de alerta trabalha-se mais e melhor.

Lorena Miranda, graduada em Letras, é mestranda do Departamento de Literatura e Cultura Russa da USP.

Publicado no site da revista Vila Nova.

domingo, 6 de novembro de 2011

COMODISMO E DESESPERO

       O processo de desenvolvimento e formação do ser humano se dá fatalmente em algum contexto social, não sendo este fatalmente determinante, mas, capaz de influenciar fortemente, restando aí também à possibilidade de agir diferentemente do lugar que está inserido. 
O conceito de lugar, tão caro aos geógrafos de hoje, é o que identifica o sujeito a determinados espaços e territórios. É lá onde ele desenvolve suas ações sociais, troca experiências e (re)produz um modo de vida. Como já foi dito, é necessário preservar uma idéia de liberdade, pois é nesse espaço que as mudanças culturais ocorrem. De outro modo, toda e qualquer sociedade estaria estagnada.
Quando desenvolvemos os pressupostos básicos acima, fica mais fácil comentar as categorias subseqüentes, caso tenha a necessidade de deixar claro o que queremos dizer. O que me refiro a partir de agora são às constatações e reclamações tão comuns pelos articulistas deste e de tantos outros blogs da região, além da minha própria. Nesse meio, não podemos nos furtar à percepção advinda do meio acadêmico, que é, talvez, a que tem formado a maior parte das “opiniões”. Tais posicionamentos se referem as mais diversas abordagens sobre a sociedade, desde a perspectiva artística a econômica. Porém, de um modo geral, pode-se dizer que passamos por péssimos momentos em todos eles. Facilmente observamos a cara de espanto como articulistas mais velhos têm em relação à gravidade da degradação intelectual e moral no Brasil nestes últimos cinqüenta anos. A perda de uma perspectiva histórica alienou o brasileiro assim como alienaria qualquer outra sociedade, pois, uma vez que retiramos a possibilidade de análise comparativa de alguém, retiramos “toda” sua possibilidade de evolução. 
Uma vez que o processo educativo que vem a produzir o que chamamos de “Alta Cultura” é todo desenvolvido através de uma rigorosa absorção dos clássicos, que vão da filosofia, as artes visuais, da música a sociologia, da literatura a teoria política, que se harmonizam e se reproduzem no ser humano como ação individual (em não em bloco, como os ideólogos disfarçados de educadores fazem hoje), estão totalmente fora das políticas de educação do país, pode-se concluir que a única possibilidade de mudarmos o atual quadro partirá, caso de fato aconteça, por meio de ações individuais. Portanto, é você, o leitor que indigna-se, ao ver que o Brasil tem um dos piores índices de educação do mundo que poderá mudar esse quadro. Normalmente a angústia diante de uma visão aterradora como está nos dá a tentativa de ação em conjunto. Pensar que o número faz a força é um raciocínio instintivo e demasiadamente primitivo em alguns casos. É o que na Grécia antiga chamaríamos de topoi, lugar comum. Fica claro que nem sempre essa conduta é a melhor a ser adotada em todos os casos. Tem-se que levar a conta que o que se quer desenvolver seja “Alta Cultura” fatalmente não será para todas as pessoas, e, talvez nem para você mesmo. Só que neste caso, você pode arriscar e tentar ver até que ponto estruturante poderá desenvolver em sua alma tal empreendimento, correndo assim os riscos e falhas sujeitas no processo. O que torna-se demasiadamente complicado é quando, ao tentar atuar em conjunto (em favor das causas sociais por exemplo) você arrisca a vida de outras pessoas que teoricamente confiam em sua competência.
A ideia mais clara sobre isso que podemos exemplificar é o meio que a coação do Estado nos faz ter que entregar nossos filhos para alheios, onde supostamente serão educados – nos dando a 53ª posição no ranking, atrás da Colômbia, Trinidad e Tobago e Tailândia, mesmo falsificando todos os dados possíveis a respeito dos índices de aprovação -. A possibilidade de uma educação através da iniciativa privada poderia ser uma solução, porém, esta também, sem nenhuma estrutura moral digna que tenha forças para encarar tamanho desafio prosta-se diante da coação do Estado mais uma vez. Dizem: - As melhores faculdades são públicas (sic)! Eles quem detêm o processo seletivo. Deste modo, tudo o que seria “educação” fica sujeito a tal processo. Observe bem que, se analisarmos a história do conceito de educação, em nenhuma hipótese, tivemos um estágio tão humilhantes como agora, onde um sujeito ou entrega de imediato sua educação nas mãos abstratas do Estado e sofre suas conseqüências concretas, ou entrega-se para iniciativa privada que, no máximo, lhe deixa apto a submeter-se a um vestibular, controlado para variar, pelo Estado.  Essa violência silenciosa tira toda a perspectiva de modificação de um país que só poderá ser modificado pela educação. Os investimentos econômicos assim como a melhoria de seus índices, são sempre vôos de galinha, sem a capacidade de manutenção por um período mais rigoroso, uma vez que a economia cresce, vemos paralelo a isso um péssimo índice de educação, saúde e violência. 
Não quero aqui reduzir e simplificar a importância do desenvolvimento econômico e comercial do país, porém, não é através disso que haverá de fato alguma mudança. Dar melhores condições econômicas a um povo sem nenhuma educação não é garantia nenhuma, além da sua subsistência. É aí apenas uma garantia biológica, no sentido mais estrito do termo. A cultura é a base de qualquer sociedade e somente através de mudanças e investimentos nesse aspecto, onde o mesmo detêm elementos como a economia, a religião, a linguagem, entre tantos outros, é que veríamos, daqui a três ou quatro gerações, alguma mudança. Como o leitor pode observar, os investimentos que temos pelo menos nos últimos cinqüenta anos só ocorreu em alguns pontos isolados, não dando a possibilidade de articulação e nem de conjunto. Quando uso a palavra “conjunto”, não me refiro a tentativa comum de pasteurizar as consciências, como é o que já vem ocorrendo, mas sim a tentativa de garantir e restaurar a noção de individualidades, onde a existência das mesmas pode atuar de modo harmônico dando-nos resultados melhores.
Para isso torna-se urgente resgatar e priorizar o que já foi perdido e contabilizar quais os pontos fundamentais que estamos corrompidos. Talvez seja a hora de cortar na carne e acabar com o amadorismo de muitos em salas de aula, acabar com a politização da educação pois nem só de política e de supostas “consciências críticas” viverá o homem. A religião e a linguagem devem ser restauradas urgentemente assim como o vigor dos clássicos da literatura. Sem o estudo rigoroso das artes não se desenvolve o imaginário de uma sociedade. O homem só é homem, não pela sua simples capacidade de raciocínios lógicos, coisa que até um orangotango faz, mas, sobretudo pela sua capacidade de imaginar. Uma sociedade com seu imaginário corrompido pela classe de pseudo-artistas está fortemente comprometida. Não estamos no luxo dos anos 60 quando filósofo Mário Ferreira dos Santos nos anunciou: - “Os bárbaros chegaram aos portões”.  Não só chegaram como agora os servimos submissos. Eles tomaram de conta dos governos, escolas, universidades enfim... A pergunta que não quer calar é: Até quando os bárbaros poderão virar diretores de escolas, políticos, professores, “artistas”?
A primeira coisa que me vem à mente a essa altura é a obra do filósofo Louis Lavelle, em seu livro “A Presença Total”, onde o mesmo nos dá a responsabilidade de ter um modo de vida de fato presente nas circunstâncias que de fato vivemos. Encarar a realidade é a única forma de viver dignamente. Ortega y Gasset nos fala que as únicas ideias de fato verdadeiras são aquelas do náufrago que, uma vez sabendo que nada de resta estando ele agarrado apenas a uma tábua... É nesta precisa hora que nos interessa saber quais pensamentos estão presentes, pois assim, em um ponto crítico da vida, só restarão os pensamentos mais verdadeiros, essenciais, fundamentais para sua existência. Estando nesse ponto crítico onde divido que exista situação cultural pior, qual seria nossa atitude diante da “Presença Total”, qual seriam as “Idéias do Náufrago”? 

domingo, 25 de setembro de 2011

Quero meu país de volta - Bruno Tolentino

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita.

Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Chair. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil As Horas de Katharina, e no fim do ano passado mais dois, Os Deuses de Hoje e Os Sapos de Ontem — todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador José Guilherme Merchior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:

VEJA — Por que tantas brigas ao mesmo tempo?

TOLENTINO — Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.

VEJA — Por que não?

TOLENTINO — Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.

VEJA — Qual o problema?

TOLENTINO — Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.

VEJA — Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?

TOLENTINO — Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.

VEJA — O que você tem contra a música popular?

TOLENTINO — Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

VEJA — O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.

TOLENTINO — Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio, achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.

VEJA — Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?

TOLENTINO — Não sabem inglês, nem alemão nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase “ele tem um pássaro”, que é literal, mas que, em alemão, quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.

VEJA — Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?

TOLENTINO — Na República das Letras, ainda estamos à espera das diretas-já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades, prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se, matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, de que, em Lilliput, só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: “Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”. Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras, e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: “Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e…” É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?

VEJA — Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?

TOLENTINO — O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e — como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? — o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.

VEJA — Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?

TOLENTINO — A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.

VEJA — Caramba… Não sobra nenhum crítico brasileiro?

TOLENTINO — Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim…

VEJA — O senhor também não sobra?

TOLENTINO — Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos críticos e poetômanos. Infelizmente, ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.

VEJA — Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?

TOLENTINO — Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.

VEJA — O senhor poderia dar exemplos disso?

TOLENTINO — Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. “Faz a melhor imitação de poesia que já li”, dizia. Parecia piada, mas não era.

VEJA — O senhor acha que a imitação é ruim?

TOLENTINO — A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.

VEJA — Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?

TOLENTINO — Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.

VEJA — Então as universidades não servem para nada?

TOLENTINO — A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.

VEJA — O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?

TOLENTINO — O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil “ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas”, como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos “grandes centros” produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o “rigor” (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.

VEJA — Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado…

TOLENTINO — É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.

VEJA — Tem a ver com o quê?

TOLENTINO — A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.

VEJA — O senhor não está exagerando, sendo duro demais?

TOLENTINO — Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.VEJA — Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país… TOLENTINO — O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.

VEJA — Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?

TOLENTINO — Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Universitários brasileiros leem apenas de 1 a 4 livros por ano, revela Andifes.

 Dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior mostram que 23% dos alunos da Universidade Federal do Maranhão não chegam a ler 1 obra por ano, enquanto apenas 5,5% leem mais de 10 títulos no período.
Na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), 23,24% dos estudantes não leem um livro sequer durante o ano. De uma forma geral, a maioria dos universitários brasileiros não vai muito além disso: lê, em média, de uma a quatro obras por ano. É o que revela levantamento exclusivo feito pelo Estado a partir de dados divulgados pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).
Numa realidade diametralmente oposta, os estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) são ávidos por leitura: 22,98% deles leem geralmente mais de dez livros por ano. No Maranhão, um dos Estados mais pobres do País, esse índice é de apenas 5,57%.
No início do mês, a Andifes divulgou pesquisa feita com 19.691 estudantes de graduação de universidades federais de todo o País, apresentando números consolidados do panorama nacional. A partir do cruzamento de dados, foi possível mapear e distinguir os cenários regionais no tocante a hábitos de leitura, frequência a bibliotecas, domínio de língua inglesa e uso de tabaco, álcool, remédios e drogas não lícitas.
A UFMA, que lidera o ranking dos universitários que não leem nada, ficou em quarto lugar entre os menos assíduos à biblioteca da universidade - 28,5% dos graduandos não a frequentam. O primeiro lugar nesse quesito ficou com a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio): metade de seus alunos esnoba o espaço.
"O aluno não vai à biblioteca porque não tem acesso a livros ou porque não está estudando? Não sabemos por que ele não vai, mas devemos pensar", afirma o coordenador nacional do Fórum Nacional de Pró-reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace), Valberes Nascimento. O curioso é que a taxa de frequência a bibliotecas é relativamente alta no País: mais da metade das universidades tem índice superior a 80%.
Inglês. A média nacional de bom inglês entre universitários é de 38,31%. Das 56 universidades cujos dados foram levantados pelo Estado, a que apresentou o menor índice de domínio do idioma foi a federal do Acre (Ufac), onde apenas 8,42% dos graduandos se consideram em um nível adequado de inglês. Os números também são muito baixos na federal do Recôncavo da Bahia (8,54%), da Fronteira Sul (9,40%), do Amapá (9,97%) e na federal de Rondônia (14,77%).
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Obs.: É essa população "educada" que está sendo formada para lecionar em escolas, universidades, a escrever em jornais e ocupar toda a cultura daqui a alguns anos. É essa gente que protesta contra a globalização, contra o aquecimento global, contra o livre mercado, contra a mercantilização da cultura. Essa gente é totalmente fake!

domingo, 6 de fevereiro de 2011

QUANDO A ARTE LUTA CONTRA A DECADÊNCIA


Mário Ferreira dos Santos

A razão quis roubar-nos a ilusão, o sonho, a fantasia. A libertação do homem (esse sofredor animal de milénios de tiranias) será iniciada ao quebrar as algemas que a razão, mal orientada, construiu para acorrentar-lhe o espírito.
O homem de amanhã filosofará como Apolo e Dioniso. Então a arte ajudará a redimir os homens, dizem muitos, porque somente pela arte o homem se salvará, mas só quando pela arte puder ser ele salvo.
Para Nietzsche a arte é o "movimento contrário" à decadência que se processa no Oriente. E, para ele, o filósofo "artista" é o conselho mais elevado da arte. É pelo caráter tumultuário de nossa vida de criação, que toda e qualquer tentativa de desejarmos emprestar fórmulas únicas representa uma violentação. Ademais, querer impor uma única perspectiva é colocar-se do ângulo de uma verdade para todos, fora da qual não há salvação. Lutar por suas ideias é um direito e um dever, mas também o é respeitar as alheias. Há um direito de ser diferente, de "não ir por aí". Igualmente em arte seria o perecimento da arte, seria estrangular o poder criativo do artista. Que se orgulhem as rãs de não ter asas, mas respeitem os pássaros em seus voos.
O que devemos desprezar na arte moderna é o artificialismo que se apresenta como elementar, primitivo. É o que sôbre-excede ao natural, o requinte de uma desvitalização, da impossibilidade de criar.



Estamos, inegavelmente, num instante trágico da história humana. Assistimos ao esquecimento de tantas verdades que foram caras à humanidade. Vemos a instalação de uma escala de valores utilitários, que dominou e domina. Há esperanças de algo novo, mas ao mesmo tempo, indecisão quanto às diretrizes desse futuro. A humanidade deseja renovar-se porque cansou de sua descrença. É o fruto de sua longa deserção da vida, porque os senhores da vida não souberam deixá-la viver e gozar em paz o seu quinhão. As camadas mais fracas são sempre as primeiras a sofrer nas horas de sacrifício, de prejuízo e de falta, e as últimas a ganhar nas horas da vitória. Aos erros dos senhores da vida, sobrevêm o sacrifício dos pequenos ...
Devemos desprezar na arte moderna o seu artificialismo, repetimos. E este se apresenta muitas vezes com as cores da originalidade, da simplicidade, do primitivismo. Mero produto consciente de uma eleição desejada, em sua incompletação e em seu esboçar-se, e quer dar a impressão de obra nascida num instante de inspiração. O pintor vazio, que nada tem a dizer, traça três ou quatro pinceladas simbólicas, ou significativas, para repetir um tema já usado, gasto, explorado, para que reflita no espectador o sentir que está na moda.
Nada mais decepcionante do que essas exposições de arte, onde centenas de novos são apresentados sem refletirem qualquer personalidade, copiando mal, e que a crítica fácil depois elogia, classifica, compara, quando não lhes atribui características de genialidade.
Talvez um dia, quando a nossa era for examinada pela posterioridade, a falta de dignidade que se observa em todas as manifestações humanas seja o característico mais saliente que a distinguirá das outras.

É a decadência que vemos instalar-se em toda a parte. Escritores medíocres competem em glória com sumidades; poetas sem poesia gritam contra a morte da poesia; pensadores sem pensamento afirmam a inanidade do pensar; artistas sem imaginação chamam pela beleza exclusiva da cópia; pintores, que não sabem pintar, usam de uma liberdade de expressão que não expressa coisa nenhuma.
Nunca na história humana se justificou tanto a fábula da raposa sem cauda do que nesta que atravessamos. O homem de valor notório nega tudo quanto não tem. O mau orador nega o valor da oratória; o incapaz de escrever coi sas profundas nega o valor da profundidade; o borra-qua-dros nega o valor da pintura do passado. Improvisam-se genialidades com a rapidez das notícias e das modas.
Três anos bastam para não se compreender nem sentir o corte de uma roupa, o padrão de um par de sapatos. Aos vestidos compridos sobrevêm os vestidos curtíssimos, e vice-versa. Uma estação, para outra, distancia tanto o modo de vestir, como antigamente distanciavam os lustros, os séculos até. É à velocidade que eles emprestam o porquê de tais factos. Propriamente a incapacidade de duração das afeições e gostos nunca foi uma prova de superioridade, e sim de inferioridade. São precisamente os "ventoinhas" que se deixam arrastar pelo agradável do passageiro ou pelo passageiro do agradável.
Não há um sentido dominante de querer a beleza. O provisório ameaça tudo, e ao domínio dos sucessos, dos "big-light-names", sucede o esquecimento sepulcral. Quantos heróis da humanidade esquecidos nesses três decénios, que, dentro talvez de outros três lustros, ninguém mais saberá dizer o que eram.
Mas, de entre cem pequenos artistas supérfluos, um ou outro desponta. Há nomes que vencerão o tempo. Se olharmos vinte anos para trás, veremos na literatura quantas promessas que despontavam e vemos, hoje, quantas realidades dessas promessas que ficaram. E das esperanças de hoje deixemos que sobrevenham mais vinte anos, para que fiquemos sabendo quantas são meras aparências.
O vazio expressional de certa arte é o que determina de início a sua morte. Quem nada diz para a vida ou para os homens, mas apenas explora um sentimento passageiro, uma emoção ou simpatia momentânea, e não fixa, em cores firmes, o que deseja expressar, não conseguirá sobreviver! Muitos artistas proclamam que não desejam ir além de si, e que lhes basta a notoriedade, e que a glória não lhes é o estímulo, e preferem a vitória do momento que passa, cuja fruição lhes está às mãos, e não trocarão o prato de lentilhas do renome pela esperança de serem amados amanhã, e compreendidos por outros, à custa, muitas vezes, da incompreensão de seus contemporâneos. Não os acusemos. São apenas mercadores das emoções e dos gostos transeuntes, embora chamem de novas mensagens as suas obras. Mensageiros da novidade e do modismo. Não pertence aos mercadores o desejo da imortalidade, mas aos estetas.
Em meio desses exploradores da arte, desses valores convencionais, o leitor sente-se perdido. Não sabe escolher, nem guiar-se. O elogio fácil, a glória proclamada de uns por outros, infunde ao leitor a convicção de que encontra pela frente o definitivo. À sua decepção sucedem decepções. Nada lhes dizem de novo. Contam-lhe apenas o que já sabe, o que já está cansado de sentir. Emocionam-no passageiramente, porque lhe despertam os instintos mais facilmente despertáveis, que não lhe deixam, porém, ressonâncias, mas um desgosto que não sabe definir.
Como todas as tendências buscam justificar-se, essas também possuem sua casuística, sua lógica, seus argumentos, suas teorias. Todas atitudes em arte são justificáveis; basta que aceitemos um ou outro postulado. Mas o que marca o valor de uma obra é alguma coisa que está ligado ao tempo. Não é exclusividade de nossa época os literatos que envelhecem em poucos anos. Na velha Alexandria e em todas as culturas, houve milhares de outros, cujos nomes estão no pó dos arquivos. Também foram expressões que ofuscaram. Pertence à história da arte a regra geral de que os artistas que obtêm vitórias fáceis não são os que deixam seu nome como um exemplo. Todo artista, que, ainda jovem, se julga com direito à glória, pratica um ato de juventude, compreensível. Se todos soubessem o perigo que existe na vitória fácil, muitos desejariam a glória tardia de um Romain Rolland, de um Simões Lopes Neto.
Só a maturidade pode conhecer a verdadeira glória. Neste caso, argumentar-se com as exceções de um Castro Alves ou de Álvares de Azevedo não é suficiente, porque exceções.
Há, entre esses artistas modernos, muitos que são apenas mercadores da arte. Há pintores que apenas vendem quadros. Há escritores que apenas vendem livros. É isso uma fatalidade de nossa época, uma fatalidade impressionante, mas que devemos compreender.
Mas não neguemos que esse aspecto puramente mercantil da arte tem sido também um estímulo para grandes obras. A miséria também nos deu grandes inspirações, e é de temer que, para os artistas, a superabundância não lhes afaste da verdadeira musa.
Lembremos que, em Alexandria, havia dramaturgos que eram preferidos a Sófocles, como hoje há dramaturgos preferidos a Shakespeare. Isso não impede que Shakespeare e Sófocles atravessem os séculos, e dos outros fique apenas a memória de sua passagem.
Não somos contra os artistas menores. Quase sempre é menor o artista que se torna grande. Os artistas menores são necessários também para dar relevo aos grandes. A grandeza é apenas uma relação. E que seria dos raros se não fossem os supérfluos?
Deixemos agora falar Spengler: "Que é que hoje chamamos arte? Uma música mendaz, artificioso estrondo de massas instrumentais; uma pintura mendaz, cheia de efec-tismos idiotas e exóticos, mais próprias dos cartazes de anúncios; uma arquitetura mendaz, que cada dez anos saqueia o tesouro das formas pretéritas, para "fundar" um novo estilo, ao qual cada um faz o que lhe dá vontade de fazer; uma plástica mendaz, feia dos roubos perpetrados na Assíria, no Egito, no México. E, contudo, o gosto dos mundanos considera isso como a expressão do tempo actual Ademais o que permanece adito aos velhos ideais, é lúbrica ocupação provinciana". E prossegue: "Em lugar de se pôr ao serviço de seu simbolismo, os artistas utilizam o cadáver, a múmia da arte, o caudal das formas já usadas, para recompô-los, misturando-as, trocando-as por uma forma totalmente inorgânica. Toda a modernidade confunde variação com evolução".
Mas o que sucede hoje já sucedeu muitas vezes na história; nem sequer conserva o cunho da originalidade, a nova musa dos modernos.
Essas palavras de Spengler são o eco, no século vinte, daquelas que, no século dezenove, Nietzsche exclamou, quase quarenta anos antes:
"Do mesmo modo que os velhos recordam a mocidade e celebram festas comemorativas, assim também a humanidade se deixa levar a uma consideração da arte como uma "recordação emocionante" dos prazeres juvenis.

Talvez nunca tenha sido compreendida a arte com tanta profundidade e alma como agora, em que a magia da morte parece envolvê-la. Pensemos naquela cidade grega da Itália meridional, que celebrava suas festas gregas, um dia em cada ano, lamentando-se e chorando ao ver a barbárie estrangeira triunfar diariamente sobre os seus costumes originais; sem dúvida, nunca se saboreou este néctar com tal voluptuosidade como entre aqueles helenos moribundos. O artista passará muito breve por ser um legado do passado, e como um maravilhoso estrangeiro, cuja força e beleza faziam a felicidade dos tempos antigos, render-lhes-ão honras como não as concedemos facilmente aos nossos semelhantes. O melhor que há em nós provém talvez desse sentimento de épocas anteriores, que apenas podemos agora alcançar diretamente; já se pôs o sol, mas ainda ilumina e acalenta o céu de nossa vida, embora não o vejamos mais".
Nós, porém, continuaremos a crer nas madrugadas.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Qualificações Acadêmicas


Não à toa, a Academia "se tornou o local onde a ignorância é levada às últimas conseqüências" (by Millôr). É que aqueles que deveriam zelar pela sua qualidade são os primeiros a cultivar corporativismos, facilidades burocráticas ou mesmo baixo proselitismo. "Aqueles que deveriam zelar", alguém pergunta, "quem são?". Os professores, ora essa! Eles mandam naquilo, ou assim deveria ser, e mandando, assumem necessariamente aquilo que vem com o poder: a responsabilidade. Eles dão o exemplo. Mas Pedro Sette-Câmara nos comenta um caso assaz interessante...

Por Pedro Sette-Câmara
Ando de metrô aqui no Rio quase todos os dias. E quase todos os dias penso que vou morrer, porque as pessoas se aglomeram nas portas, e, apesar de eu ser um sujeito pacífico, sou obrigado a empurrar alguém para entrar, o que faço, admito, sem grandes pudores. Afinal, não existe exatamente um dilema entre eu me atrasar e algum boçal ficar lambendo a porta do trem só porque acha isso gostoso.

Mas bem, nem é desse grave problema civilizacional que quero falar. Quero contar, compartilhar uma coisa que vi essa semana. Dirijo-me como um ser civilizado ao famoso centro do carro e vejo que, sentado, um homem tira da mochila uma apostila, dessas com espiral. É um trabalho acadêmico. É um trabalho de conclusão de curso, e o curso é um MBA do IBMEC. O autor do trabalho é uma mulher.

Em coisa de dois minutos (sim, eu contei) o sujeito folheia o trabalho, saca um papel, e o preenche com a nota — 7,5 — e uma justificativa. Eis que chegamos à estação do Catete. Mais um trabalho de conclusão de curso, assinado por Daniel Sobrenome Whatever (lembro bem, posso dizer qual era, upon request), sai da mochila do sujeito, e, assim que chegamos à estação seguinte, a da Glória, após menos de dois minutos, temos mais uma nota: 7. Não, um momento: enquanto ele preenchia a justificativa da nota, achou melhor alterá-la para “aprovado sujeito a modificações”.

Sei por experiência que corrigir trabalhos é chato, e não pouco. Sempre pensei que, dando aula regularmente, só daria provas e daria a meus alunos um número máximo de caracteres ou de palavras, a fim de que eles não fossem prejudicados pela minha falta de paciência com as embromações acadêmicas. Mas, hélas, também já gastei horas escrevendo trabalhos, e já gastei muito dinheiro com aulas. Não foi para que meus trabalhos fossem corrigidos entre a Glória e o Catete. O que vi pode ter sido um caso isolado. Só para garantir, recomendo que você torre a paciência do seu professor. Você pagou, ele recebeu. A melhor maneira de começar a melhorar a educação brasileira é fazer com que o professor saiba que cada movimento dele é impiedosamente analisado.

Retirado de PedroSette.com.

terça-feira, 15 de junho de 2010

Como Parecer Culto


Por Marcelo Maroldi

Atualmente, temos livros sobre praticamente qualquer assunto que se deseja ler. Há livros sobre as aranhas vermelhas do norte do Amazonas e sobre abduções extraterrestres de pessoas albinas, sobre gastronomia nas ilhas Faroe e sobre como conquistar garotas nas baladas GLS da Turquia. Absolutamente tudo tem um livro correspondente. Nos últimos anos, principalmente, tornaram-se comuns os livros for dummies ou "aprenda em 10 lições"... Os últimos que vi tratavam de ensinar como parecer culto, um intelectual, como se portar em museus, teatros, exposições, como conversar sobre literatura, sobre cinema e sobre artes plásticas e parecer que entende do assunto. Não, não é piada, leitor (e eu juro que gostaria que fosse). Você não precisa entender nada de literatura!, basta comprar o livro e fingir que entende. É uma fraude intelectual!

Antes de prosseguir, é importante dizer que estes livros não têm como proposta ensinar o básico do assunto, não é isso! Estes livros têm como objetivo apontar o que você precisa falar quando te perguntarem de literatura, por exemplo, se é que alguém te pergunta isso (aliás, se alguém te pergunta sobre este assunto, favor me apresentar tal pessoa). Por isso soa como piada! É quase um teatrinho: os autores mostram o que você precisa dizer e você não precisa estudar o assunto, basta repetir laconicamente o que te mandarem dizer. Minha crítica não é contra quem escreve e publica tais livros, eles têm, provavelmente, interesses econômicos. Agora, comprar um livro desse?, tenha santa paciência (aliás, expressões populares não devem constar no livro, elas não combinam com gente culta).

É difícil você encontrar alguém que admita ler tais livros, afinal, não é elegante ler tal literatura. O legal é você dizer que sabe tudo de literatura porque já leu muitos livros, lê revistas especializadas, participa de cursos, freqüenta uma biblioteca pública, e não porque comprou os "10 livros que você precisa saber falar quando te perguntarem de literatura". Entretanto, caso você conheça alguém que lê esses livros e o questionar, ele dirá, provavelmente: eu não tenho tempo para ler o que eu gostaria de ler. É claro que eu não irei discutir o assunto, cada um sabe o que fazer com o seu próprio tempo. Porém, acredito que quem lê um livro como este – e que, portanto, precisa ou deseja saber falar do assunto – deveria arrumar tempo para estudá-lo. Se a pessoa não arruma tempo para estudar o assunto, é porque não deve encará-lo como importante para sua vida. Ah, e se não o encara como importante, não deveria querer falar sobre ele e se importar com isso.

Tudo bem, tudo bem! A pessoa tem todo o direito de falar sobre filmes clássicos se quiser, mesmo que não saiba nada disso. E daí ele compra o livro. Mas, por que essa necessidade de parecer culto? Por que todo mundo atualmente tem que ser especialista em absolutamente tudo? Por que não posso dizer que não entendo nada de teatro russo, ou de cubismo? Isso vai radicalmente contra tudo o que vejo nessa minha vida. As pessoas estão cada vez mais estúpidas, fúteis e despreparadas, por que, então, devo me preocupar em me mostrar culto e discutir com elas? Por que todo mundo precisa ser culto? É muito raro encontrar pessoas intelectualizadas de fato, por que preciso ler teatro russo for dummies? Talvez, sendo assim, mostrar-me (mais) culto que elas parece demonstrar que sou melhor que as mesmas. Só isso. É quase uma competição e vence quem mostrar ser mais culto.

Dentre os assuntos que você precisa conhecer para não ser considerado um inculto (e para vencer essa competição bizarra), temos um interessante: filosofia, que está na moda. Hoje, proliferam-se cursos (não acadêmicos) de filosofia, livros de filosofia para leigos, artigos em jornais, revistas, etc. Antigamente, somente era necessário citar Marx para estar adequado. Agora, não! Se você não conhecer uma meia dúzia de filósofos, vai ter que apelar para os livros de auto-ajuda, como os supracitados. Colaboram para isso obras como O mundo de Sofia, a popularização (sic) do assunto, como o (péssimo) quadro "Ser ou não ser", do Fantástico e a presença de filósofos na televisão, como a Márcia Tiburi no Saia Justa. Embora a iniciativa seja louvável, filosofia não é algo que se aprende em poucos meses. Não é algo imediato e tampouco trivial. É necessário anos de dedicação debruçados sobre um mesmo autor para poder dizer que o conhece. Então, como é que as pessoas discutem filosofia? A moda entre a classe alta é discutir filosofia, e eu pergunto: qual?, o quê?, como assim? O sujeito assiste o Café Filosófico (TV Cultura) e sai dizendo que estuda filosofia? Um professor meu na Unicamp dizia que era preciso se dedicar 4 horas por página de obra filosófica para entendê-la. É claro, leitor, que ele estava brincando... 4 horas é muito pouco! A maioria das pessoas que conheço não lê 4 horas num semestre todo (incluindo a leitura das bulas de remédio e do horóscopo), como poderiam então conhecer e discutir este assunto em profundidade? Antigamente, a moda era dizer que se estudava crítica literária. A elite paulistana, por exemplo, enchia os cursos particulares sobre o assunto, pagando preços altos para ver nomes conhecidos lecionarem. Acho que a crítica literária ficou muito simples, todos já sabem tudo a seu respeito, e por isso partiram para a filosofia. Deve ser isso...

Outro assunto que você não poderá negligenciar é o cinema. Mas, não, não o Hollywoodiano. Tem que ser filmes de arte, aqueles que não passam na TV e nem na maioria dos cinemas comerciais. Cinema francês, ou Afegão, ou mesmo Bollywood já serve. O que não pode é não gostar de nenhum deles, desconhecer os nomes dos autores e diretores e odiar filmes "parados". Isso é uma falha irreparável!

Teatro, claro, é assunto indispensável. Mas não pode ser qualquer peça. Comédia, nem pensar. Precisa ver os clássicos, ou os de vanguarda, tão de vanguarda que quase não se entende nada. Aliás, esse é o ponto! Quanto menos inteligível, melhor é.

Na música, não se pode, jamais, dizer que se ouve pagode, axé ou sertanejo. Isso é inadmissível! É necessário gostar de MPB (por sorte, é um campo vasto demais para se complicar ao dar uma opinião), Bossa Nova e, se possível, música clássica. Seu Jorge, Los Hermanos e Lenine somam pontos também.

Sobre televisão, há 2 opções válidas: dizer que assiste (e então dizer o que assiste) ou dizer que não assiste, que também vale. Se decidir por dizer que assiste, tais (e somente estes) programas podem ser citados: Manhattan Connection, Roda Viva, Café Filosófico, Entrelinhas, [re]corte cultural, Conexão Roberto D’Ávila, Boulevard Brasil, Observatório da Imprensa, jornalismo em geral (preferencialmente CNN ou BBC).

É necessário, também, conhecer algumas pessoas e o que elas fazem ou falaram. Se você citá-los então, é perfeito! A minha lista tem: Diogo Mainardi, Olavo de Carvalho, Ferreira Gullar, Michel Melamed, Chico Buarque, 1 diretor de cinema, 1 diretor ou ator de teatro, 1 político de esquerda (PSOL, se possível), 1 filósofo qualquer, 1 poeta pouco conhecido, 1 artista plástico (vale parente ou vizinho), 1 teólogo qualquer (teologia da libertação não vale, está fora de moda), 1 jornalista que escreva para um grande jornal e 1 artista não reconhecido, mas "com muito talento" e que vai "estourar".

Na internet, você deve mencionar Le Monde e El Pais, Primeira Leitura e revistas similares, site do Canal Brasil, portais de cultura (literatura, música, etc) contidos nos grandes sites e alguns blogs de escritores, jornalistas. E você pode citar este Digestivo Cultural também, claro.

Uma outra característica que causa muita boa impressão é citações e comparações que pouca gente conhece. Por exemplo, dizer que um pensamento ou alguém é muito cartesiano (anticartesiano é melhor ainda!), ou que o behaviorismo radical é insustentável ou que a escola chilena de filosofia é muito interessante vai deixar a maioria das pessoas impressionada. Calma! Mesmo que você também não saiba o que seja isso, ninguém vai ousar te perguntar e demonstrar não sabê-lo, e em último caso, você diz que é um assunto muito denso para aquele momento e que vocês podem marcar um café qualquer dia desses (e, evidentemente, não marque!). A propósito, marcar de bebericar cafés em livrarias é algo típico da pessoa culta. Anote aí.

Se você fizer tudo isso vão te achar inteligentíssimo, creia-me. Para completar a fraude, meus amigos, falta só um detalhe: o seu perfil do Orkut! Sim, isso é muito importante. No seu perfil, você deve acrescentar todas as comunidades das personalidades acima e dos assuntos também. Comunidades como "Teatro Ucraniano moderno", "Bach" ou "Gothic Poetry" ajudam muito. Depois, peça a uns amigos seus (uns 3 ou 4) para escreverem depoimentos a seu respeito. Os depoimentos devem mencionar sua cultura vastíssima, suas viagens para o Egito e seus tempos de Universidade Pública, curso de teatro, aquele mico no Louvre ou namoro com personalidades. E, finalmente, o golpe final: sua autodescrição. Essa precisa ser matadora, como algo bem abstrato (um neosartreano em busca da consciência plena), romântico (procurando alguém pra dividir os sonhos) ou culto mesmo(gosto de Stravinsky e estudo Piaget...). É batata, pessoal! Se você for "solteiro", vai chover amigos querendo te conhecer melhor!

Isso sim é uma receita de fraude! Vão te achar culto! E eu nem cobrei nada por isso... Boa sorte!

Fonte: http://www.digestivocultural.com