terça-feira, 27 de setembro de 2011

Até o limiar da dor.

Eu sei que há dores que o grito não basta para expressar
E que a lágrima é muito pouca para o quanto temos que sangrar
As pegadas na própria alma não são feitas para sair, mas apenas para machucar.

No meio da treva densa, dessa escuridão imensa você sumiu atravessada por uma lança, também a cair e gemer, também e como sempre, a sangrar.

Mas nestes casos a morte não resolve muita coisa, não dá para esquecer...a dor ultrapassa as vidas, pois o que doi hoje, vem de tempos de vidas e vidas, e sempre vem muito mais.

A dor de hoje tem a cor da luz de mercúrio, das velas caravagescas, é o bastante somente para ver o despero e os cavaleiros do apocalipse querendo muito mais.

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

Nada mais que isso.

O amor, a palavra antiga, atual, usada, mentida
Está acima do mencionado, da palavra escrita
Que fere o papel.
O amor é pétala ao vento, não vista mas sentida
É uma dor quer quer ser doída, é um olhar, um gesto, uma não-palavra
O que dizem os poemas, o que está rabiscado em desenhos, O que flutua no quadro
É rarefeito, é apenas o que foi possível na imensidão do sentir, escrever, desenhar, pintar.
O amor, quando amor verdadeiro, como o voo do pássaro, como o toque dos dedos, dos lábios...
Tudo é pequeno, pois muito pouco se pode dizer sobre o tanto ele seja
E é amor e nada mais do que isso, o que sinto.

Foto: Nika.

domingo, 25 de setembro de 2011

Quero meu país de volta - Bruno Tolentino

Bruno Lúcio de Carvalho Tolentino, menino carioca de família aristocrática, gosta de dizer que é de um tempo em que rico não roubava. O avô foi conselheiro do Império e fundador da Caixa Econômica Federal e seus tios eram intelectuais, como os escritores Lúcia Miguel Pereira e Otávio Tarquinio dos Santos, além dos primos Barbara Heliodora, a crítica teatral, e Antonio Candido, o crítico literário. Ainda era analfabeto em português quando duas preceptoras, mlle. Bouriau e mrs. Morrison, o ensinaram a conversar em francês e inglês dentro de casa. Tolentino saiu do Brasil em 1964 e, no estrangeiro, ocupou-se de árvores genealógicas de origem erudita.

Orgulha-se de ter filhos com mulheres descendentes do filósofo Bertrand Russell e do poeta Rainer Maria Rilke. O mais novo, Rafael, de 8 anos, nascido em Oxford, Inglaterra, onde o pai ensinou literatura durante onze anos, é filho da francesa Martine, neta do poeta René Chair. Bruno publicou livros de poesia em inglês e francês. Em 1994, lançou no Brasil As Horas de Katharina, e no fim do ano passado mais dois, Os Deuses de Hoje e Os Sapos de Ontem — todos ignorados pela crítica, pelo público e pelos curiosos.Aos 56 anos, já de volta ao Brasil, Tolentino tem feito força para tornar-se herdeiro do embaixador José Guilherme Merchior, intelectual de boa formação e polemista musculoso. Tem conseguido aparecer. Brigou com os poetas concretos, depois com o que considera máquina de propaganda de Caetano Veloso e sua turma. Em seguida, com os críticos literários e os filósofos, elevando ainda mais o tom numa entrevista publicada por O Globo, duas semanas atrás. Fora do país, Tolentino ensinou em Oxford, Essex e Bristol e trabalhou com o grande poeta inglês W.H. Auden. Conheceu celebridades como Samuel Beckett e Giuseppe Ungaretti. Horrorizado com a possibilidade de ver o filho mais novo crescendo em escolas que ensinam as obras de letristas da MPB ao lado de Machado de Assis, abriu fogo contra o que considera o lado ruim de sua pátria, como explica em sua entrevista a VEJA:

VEJA — Por que tantas brigas ao mesmo tempo?

TOLENTINO — Para ver se o pessoal cai em si e muda de mentalidade. O Brasil é um país vital que está caindo aos pedaços. Não quero sair outra vez da minha terra, mas não posso ficar aqui sem minha família, que está na França. Não posso educar filho em escola daqui.

VEJA — Por que não?

TOLENTINO — Foi minha mulher quem disse não. Educar um filho ao lado de Olavo Bilac, última flor do Lácio inculta e bela, que aconteceu e sobreviveu, ao lado de um violeiro qualquer que ela nem sabe quem é, este Velosô, causou-lhe espanto. A escola que ela procurou para fazer a matrícula tem uma Cartilha Comentada com nomes como Camões, Fernando Pessoa, Drummond, Manuel Bandeira e Caetano. O menino seria levado a acreditar que é tudo a mesma coisa. Ele nasceu em Oxford, viveu na França e poderá morar no Rio de Janeiro. Ele diz que seu cérebro tem três partes. Mas não aceitamos que uma dessas partes seja ocupada pelo show business.

VEJA — Qual o problema?

TOLENTINO — Minha mulher já havia se conformado com os seqüestros e balas perdidas do Rio, mas ficou indignada e espantada pelo fato de se seqüestrar o miolo de uma criança na sala de aula. Se fosse estudar no Liceu Condorcet, em Paris, jamais seria confundido sobre os valores do poeta Paul Valéry e do roqueiro Johnny Hallyday, por exemplo. Uma vez entortado o pepino, não se desentorta mais. Jamais educaria um filho meu numa escola ou universidade brasileira.

VEJA — Não é levar Caetano Veloso a sério demais? Ele não é só um tema de currículo, entre tantos outros?

TOLENTINO — Não. Ele está também virando tese de professores universitários. Tenho aqui um livro, Esse Cara, sobre Caetano, uma espécie de guia para mongolóides, e a mesma editora desse livro me pede para escrever um outro, sob o título Caetano Se Engana. É preciso botar os pingos nos is. Cada macaco no seu galho, e o galho de Caetano é o show biz. Por mais poético que seja, é entretenimento. E entretenimento não é cultura.

VEJA — O que você tem contra a música popular?

TOLENTINO — Se fizerem um show com todas as músicas de Noel Rosa, Tom Jobim ou Ary Barroso, eu vou e assisto dez vezes. Mas saio de lá sem achar que passei a tarde numa biblioteca. Não se trata de cultura e muito menos de alta cultura. Gosto da música popular brasileira e também da de outros países, mas a música popular não se confunde com a erudita. Então, como é que letra de música vai se confundir com poesia?

VEJA — O senhor não está ressentido por ele ter assinado um manifesto contra um artigo seu sobre uma tradução do poeta Augusto de Campos? No fundo, parece que o senhor está querendo aparecer à custa deles.

TOLENTINO — Não tenho ressentimento nem ciúme. Nem tenho nada contra quem assina manifesto. Se você vê um amigo seu brigando na rua, o mínimo que pode fazer é ir lá apartar. Foi o que ele fez no caso do Augusto de Campos. Só que assinou um cheque em branco. A princípio, achei que ele tinha entrado de gaiato, e lhe dei o benefício da dúvida, sobre uma questão muito delicada de tradução e de cultura que ele não está capacitado para julgar. Nem ele nem Gal Costa. Que intelectuais são esses? Se os irmãos Campos não sabem inglês, imagine eles.

VEJA — Os poetas e tradutores Augusto e Haroldo de Campos não sabem inglês?

TOLENTINO — Não sabem inglês, nem alemão nem grego. Por exemplo, traduziram Rainer Maria Rilke e criaram a frase “ele tem um pássaro”, que é literal, mas que, em alemão, quer dizer que alguém tem uma telha a menos, é meio doido. São péssimos poetas e péssimos escritores. Não sabem absolutamente nada do que alardeiam saber.

VEJA — Por que só o senhor, e não outros críticos, diz essas coisas?

TOLENTINO — Na República das Letras, ainda estamos à espera das diretas-já. A usurpação do poder legal por vinte anos deixou-nos seus legados nas patotas literárias que desde então controlam a entrada em circulação, ou a exclusão pelo silêncio, de livros, autores, obras inteiras. Nas redações dos jornais como nas universidades, prevalece a censura, e o único critério para sancionar uma obra parece ser o bom comportamento do neófito, sua genuflexão aos ícones da hora. Nossa crítica suicidou-se, matando o diálogo, o debate e a polêmica. Mascarados de universitários, esses anõezinhos conseguem dar a impressão de que a inteligência nacional encolheu, de que, em Lilliput, só se sabe da cintura para baixo. Quem já ouviu falar de Alberto Cunha Melo, que vive escondido no Recife, e é nosso maior poeta desde João Cabral? São dele estas palavras: “Viver, simplesmente viver, meu cão faz isso muito bem”. Mas José Miguel Wisnik ora é crítico, ora é letrista e compositor, portanto é catedrático. Os violeiros empoleiraram-se nas cátedras, e Fernando Pessoa virou afluente da MPB. Não é à toa que até em Portugal os brasileiros viraram piada. Ouvi uma que provocava gargalhada logo à primeira frase: “Um intelectual brasileiro ia começar a ler Camões quando a banda passou e…” É preciso perguntar dia e noite: por que Chico, Caetano e Benjor no lugar de Bandeira, Adélia Prado e Ferreira Gullar?

VEJA — Por que o senhor acha os críticos brasileiros ruins?

TOLENTINO — O que os críticos disseram sobre meus trinta anos de poesia? Só, desonestamente, que minha poesia é arcaizante e não suficientemente progressista. Que eu, o escritor Diogo Mainardi e — como é mesmo o nome do marido da Fernandinha Torres? — o diretor Gerald Thomas somos figurinhas carimbadas porque somos amigos de gente famosa. Quer dizer, chamam a atenção para a pessoa e não para a obra. E toda pessoa é discutível. Eu sou meio apalhaçado mesmo. A minha biografia é interessante, meio cinematográfica, e assim é como se eu não tivesse escrito nada. Uma espécie de Ibrahim Sued das letras.

VEJA — Mas o que aconteceu com os críticos para que se tornassem tão incapazes, na sua opinião?

TOLENTINO — A crítica brasileira não existe mais. Cometeu um haraquiri muito bem pago. Trocou sua independência por cátedras e verbas. É uma gente venal, vendida, que controla as nomeações para as cátedras, bolsas e verbas. Vão se meter com um maluco como eu? Todos, de Roberto Schwarz a David Arrigucci, foram formados pelo meu primo Antonio Candido, que é um geriatra nato.

VEJA — Caramba… Não sobra nenhum crítico brasileiro?

TOLENTINO — Sobra, evidentemente, Wilson Martins, que não tem lá muito gosto poético, mas enfim…

VEJA — O senhor também não sobra?

TOLENTINO — Em vários sentidos. Não tenho onde escrever. Sou herdeiro, e me considero assim, da combatividade crítica de José Guilherme Merquior. Crescemos e fomos amigos juntos, tínhamos idéias convergentes embora nem sempre coincidentes. Quando ele morreu, em 1991, houve um grande suspiro de alívio entre nossos críticos e poetômanos. Infelizmente, ele era embaixador. Eu não sou embaixador de nada. Essa gente está morta de medo de que eu venha a ter uma tribuna. Não me importa ser celebrado lá fora. Não faço falta lá, há muitos outros como eu. Aqui, com esta independência, cultura, erudição e combatividade, não tem outro que nem eu.

VEJA — Sem embaixada, o senhor vai ser só poeta?

TOLENTINO — Minha obra poética está basicamente terminada. Escrevi poesia por mais de trinta anos e não conheço nenhum outro poeta, além de Manuel Bandeira, que tenha conseguido escrever bem além dessa média. A partir daí, decai. Estou transferindo o meu esforço para o ensaio. Falar, por exemplo, dos males que a ditadura causou ao país me parece cada vez mais um sintoma do que uma causa. É um sintoma do Febeapá, vem no bojo dele. A imbecilidade já crescia. A ditadura simplesmente institucionalizou a falta de respeito pela realidade, pelo próximo, pela legalidade. A verdade foi substituída pela verossimilhança, a literatura, pela imitação da literatura.

VEJA — O senhor poderia dar exemplos disso?

TOLENTINO — Foi Wilson Martins quem levantou essa idéia, ao dizer que as obras de Chico Buarque e Jô Soares eram imitações da literatura. Auden, o Drummond lá dos ingleses, também dizia algo parecido. A gente lia um cara e concluía que ele era muito ruim. Auden discordava, dizendo que ele era muito bom. “Faz a melhor imitação de poesia que já li”, dizia. Parecia piada, mas não era.

VEJA — O senhor acha que a imitação é ruim?

TOLENTINO — A imitação da literatura se dá quando se fecha no círculo de ferro na modernidade. Ela obriga o leitor a seguir moda, busca efeito imediato, como se tudo começasse por você, naquele momento. A verdadeira literatura está sempre acuando tudo que a precedeu. Quincas Borba, de Machado, contém toda a novelística russa, e também Balzac. Wilson mostrou com muita acuidade e mordacidade que os romances de Chico são uma reedição do nouveau roman, que já morreu. Agora morreu a última representante dele, Marguerite Duras. Conheci toda aquela gente do nouveau roman, Alain Robbe-Grillet, Michel Butor, e saí correndo. Chato existe em todo lugar, não só no Brasil. Mas Wilson foi injusto com a imitação do Jô. É uma coisa que não pretende ser mais do que aquilo mesmo, divertir.

VEJA — Por que o senhor não vai ensinar o que sabe nas universidades?

TOLENTINO — Só entro numa universidade disfarçado de cachorro ou levado por uma escolta de estudantes. Sou um vira-lata muito barulhento. Não vão me convidar para nada porque eu quero acabar com os empregos e mordomias deles. Quero que eles passem por todos os exames de Oxford para ver se sabem mesmo alguma coisa.

VEJA — Então as universidades não servem para nada?

TOLENTINO — A escola pública desapareceu. A fórmula de sobrevivência do país é a trilogia emprego público, de preferência com aposentadoria acumulada, condomínio fechado e plano de saúde. Esse é o apartheid construído por uma elite analfabeta e totalmente irresponsável que entregou nossa cultura. Nem estou falando da nossa classe média, que tem dinheiro para gastar em boates e shows e sair de lá gargarejando cultura.

VEJA — O senhor tem acompanhado a produção intelectual das universidades brasileiras?

TOLENTINO — O departamento de filosofia da Universidade de São Paulo nunca produziu filosofia nenhuma, não por inépcia ou preguiça, mas por um estranho espírito de renúncia parecido ao espírito de porco. Cultivavam a crença de que só poderia nascer uma filosofia no Brasil “ao término de um infindável aprendizado de técnicas intelectuais criteriosamente importadas”, como diz um professor de lá. Mais urgente do que filosofar era macaquear os debates dos “grandes centros” produtores de cultura filosófica. O que significava tomar o padrão europeu do dia como norma de aferição do valor e da importância do pensamento local. Imaginando ou fingindo preservar a mente brasileira de uma independência prematura, o que os maîtres à penser da USP fizeram foi apenas incentivar a prática generalizada do aborto filosófico preventivo. Não espanta que, por quatro décadas, o “rigor” (com aspas) uspiano não produziu outro resultado senão o rigor mortis de uma filosofia que poderia ter sido o que não foi.

VEJA — Mas José Arthur Giannotti escreveu um livro de filosofia, Apresentação do Mundo, que foi muito elogiado…

TOLENTINO — É, ele escreveu um besteirol sobre Ludwig Wittgenstein saudado em suplementos de várias páginas como marco do nascimento da filosofia no Brasil. É uma audácia depois de Mário Ferreira dos Santos, Miguel Reale, Vicente Pereira da Silva e Olavo de Carvalho. Nós temos uma filosofia nativa, isso sem falar da filosofia de cunho religioso, teológico, que eu não vou citar porque sou católico e vão dizer que estou puxando a brasa para a sardinha da Virgem Maria. Passei cinco meses garimpando nas páginas daquele livro e não encontrei nada que não fosse uma leitura do que Wittgenstein acha da dificuldade lingüística de compreender a realidade. Isso a gente já sabe, a partir do próprio Wittgenstein. Uma filosofia nacional não tem nada a ver com isso.

VEJA — Tem a ver com o quê?

TOLENTINO — A cultura filosófica brasileira é quase nula. Nossos professores gastaram décadas lendo Marx, em vez de Husserl. Aqui só dá o tripé Kant, Hegel e Marx. E onde está a grande tradição escolástica que vai de Aristóteles a Husserl? Isso não é lido nem discutido aqui. Mas existe uma filosofia brasileira. Reale e Olavo de Carvalho, que não se formaram em lugar algum, não perderam tempo com essa estupidez. Foram estudar e aprender as tantas línguas que falam. Eu, quando tenho dificuldade com latim, grego ou alemão, é para eles que telefono.

VEJA — O senhor não está exagerando, sendo duro demais?

TOLENTINO — Não. Não passei nenhum dia aborrecido aqui. Sempre encontro gente inteligente. Quando cheguei à Europa, não tive nenhum complexo de inferioridade. É verdade que eu conheci em casa o que o Brasil tinha de melhor. Faço parte do patriciado brasileiro. E não via diferença entre Ungaretti e Manuel Bandeira, só de língua. Era a mesma coisa. Não havia um Terceiro Mundo na minha cabeça. Eu, quando pequeno, conheci Graciliano Ramos e Elisabeth Bishop. Só havia gente dessa categoria.VEJA — Dá a impressão de que só agora se começou a falar e a escrever besteira no país… TOLENTINO — O besteirol, se havia, estava lá longe, nos cantos. Hoje ele está no centro. Tem razões mercadológicas, de dinheiro. Os artistas devem ganhar muito, muito dinheiro, para ir gastar em Miami. Só não é possível que esses senhores usurpem a posição do intelectual. Eles são um formigueiro com pretensão a Everest.

VEJA — Não é bom para o país ter um intelectual na Presidência da República?

TOLENTINO — Votei no Fernando Henrique Cardoso porque era uma oportunidade única, desde Rui Barbosa, de ter um intelectual no poder. E o que ele fez na sua primeira entrevista coletiva? Citou Machado de Assis ou Euclides da Cunha? Não. Citou o mano Caetano. Uma coisa tão espantosa quanto Rui Barbosa, se tivesse ganho a eleição, citasse Chiquinha Gonzaga. O Brasil que eu conheci, e do qual me recordo vivamente, era um país de grande vivacidade intelectual, mesmo sendo uma província. Não estou sendo duro com o Brasil. Quero saber quem seqüestrou a inteligência brasileira. Quero meu país de volta.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Para quem não sabe o que é conservadorismo: Roger Scruton!

Em outubro de 2009, o Clarion Review publicou uma ótima entrevista com o filósofo político Roger Scruton que foi traduzida pelo blog português Dextra, que não mais existe. Felizmente, o blog Nada disto é Novo havia reproduzido a maior parte da tradução. Alguns trechos:

Como o Sr. encontra tempo para escrever, ensinar, ser fazendeiro, dar consultorias, caçar e viver? O Sr. segue uma disciplina diária severa?

Tenho sido abençoado com energia e disciplina desde terna idade. E observo uma disciplina severa: borgonha branco às 7:30 da manhã e claret ao jantar.

O Sr. descreveu o conservadorismo como sendo "amar o mundo pelo que ele é." O que o Sr. quer dizer com isto?

O conservadorismo envolve, como você diz, amar o mundo como ele é -- não todo ele, mas aquela parte que conseguimos receber dos mortos. Isto significa reconhecer o quanto é mais fácil destruir que criar. Isto envolve uma atitude de amizade em relação à comunidade, ao invés de um desejo de refazê-la em cumprimento a algum objetivo oni-abrangente. E assim por diante.

O que diferencia o conservadorismo do liberalismo ?

O problema com o liberalismo clássico é que ele nunca pára para examinar o que está em questão quando se diz "não prejudicar os outros." Será que deixo os outros ilesos quando destruo minha capacidade de me relacionar pessoalmente por causa do uso de drogas, promiscuidade e vício em pornografia? Será que deixo os outros ilesos quando me entorpeço com música pop? Não tenho nada contra o individualismo, desde que se reconehça que o indivíduo é criado pela comunidade e pelos limites morais que aí prevalecem. O indivíduo não é a fundação da sociedade, mas seu sub-produto mais importante.

Muita gente considera o conservadorismo uma forma de nostalgia romântica, uma reverência irracional ao passado. Como o Sr. responderia a isto?

Todas as formas de crença social e política que temos diante de nós, hoje, se relacionam com o movimento romântico, pois este é o arquétipo de nossa contínua tentativa de viver de acordo com nossos próprios planos. Na verdade, isto se aplica mais ao socialismo do que ao conservadorismo -- sendo o socialismo uma espécie de nostalgia mórbida do futuro, que é ainda mais prejudicial do que a nostalgia do passado. E esta palavra, "nostalgia" -- o que significa? A ânsia pelo nostos, o "retorno ao lar", oHeimkehr, que é o coração de qualquer reflexão séria sobre nosso tempo na terra. Só é preciso se distinguir entre as formas positivas e negativas dela. O Renascimento foi um grande movimento de nostalgia em relação ao mundo clássico; e veja como ele abalou tudo!

A via da alta cultura pode servir como um substituto para a fé religiosa? A via estética não está restrita a uma pequena elite?

Nada pode substituir a fé sobre a qual uma civilização foi construída. Mas a alta cultura pode beneficiar a todos, mesmo que seja só uma elite que participe diretamente dela. A ciência benficia a todos, muito embora só uns poucos a entendam. Acredite ou não, o mesmo vale para Beethoven, comos os ingleses descobriram na última guerra. Os concertos e transmissões de música clássica, sobretudo da quinta de Beethhoven, tornaram-se símbolos de uma rebeldia que não poderiam ser facilmente representados pela cultura popular, que não ia tão longe dentro do espírito. As elites são necessárias aos que não pertencem a elas; e aquilo que serve como alimento para o espírito dos líderes é alimento para os que seguem.

O Sr. já escreveu que muitas instituições educacionais permanecem sob o controle de uma "cultura do repúdio" nihilista. O que os estudantes modernos podem fazer para adquirirem uma educação adequada e se civilizarem, dadas as distrações da vida moderna?

A auto-ajuda é uma filosofia tão válida hoje quanto no século 19. Eu me lembro de ter visitado estudantes nos antigos países comunistas que tinham sido expulsos das universidades e tomavam a iniciativa de convidar pessoas do Ocidente (e sobretudo anti-socialistas como eu) para falar para eles. Pessoas inteligentes sempre conseguem se erguer acima de seu meio, desde que se armem com as três grandes armas conservadoras: o humor, a ironia e o desprezo.

O Sr. recentemente se mudou para os Estados Unidos e agora divide seu tempo entre o interior da Virgínia e a Inglaterra. Do que o Sr. mais gosta na Virgínia? E do que o Sr. sente falta na Inglaterra e que seria mais bem-vindo se fosse possível trazer no avião?

Os refugiados do estatismo europeu sempre ficam espantados em descobrirem na América uma sociedade na qual as pessoas ainda sentem prazer no sucesso dos outros. O ressentimento ainda não é a atitude dominante lá. E quando há um desastre, as pessoas se apressam em ajudar. Eles também se oferecem como voluntários para serviços de resgate e coisas assim e têm um interesse real em melhorar a comunidade -- uma coisa que Tocqueville notou no século 19 e ainda é verdade hoje. A América é uma sociedade fundada no ato de dar, não de pedir. A Europa é uma sociedade construída sobre os "direitos humanos"; em outras palavras, exigências mesquinhas por cuidados alheios.
Por outro lado, há aspectos da Europa -- e da Inglaterra, em particular, de que sinto falta lá. A mais importante é uma legislação urbanística construtiva e sensata. A América é uma bagunça, com cidades esfaceladas e evisceradas, áreas centrais metropolitanas que são abomináveis e não têm semáforos ou espaços públicos e uma zona rural invadida pela expansão dos subúrbios. É espantoso ver que um país tão rico e tão bem bem abastecido pela natureza tenha decidido tornar-se um depósito de lixo. Por outro lado, em muito deste lixo aparece um sorriso da Disneylândia e devemos ficar gratos por isto.

Fonte: http://www.brunogarschagen.com/

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

Universitários brasileiros leem apenas de 1 a 4 livros por ano, revela Andifes.

 Dados da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior mostram que 23% dos alunos da Universidade Federal do Maranhão não chegam a ler 1 obra por ano, enquanto apenas 5,5% leem mais de 10 títulos no período.
Na Universidade Federal do Maranhão (UFMA), 23,24% dos estudantes não leem um livro sequer durante o ano. De uma forma geral, a maioria dos universitários brasileiros não vai muito além disso: lê, em média, de uma a quatro obras por ano. É o que revela levantamento exclusivo feito pelo Estado a partir de dados divulgados pela Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes).
Numa realidade diametralmente oposta, os estudantes da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) são ávidos por leitura: 22,98% deles leem geralmente mais de dez livros por ano. No Maranhão, um dos Estados mais pobres do País, esse índice é de apenas 5,57%.
No início do mês, a Andifes divulgou pesquisa feita com 19.691 estudantes de graduação de universidades federais de todo o País, apresentando números consolidados do panorama nacional. A partir do cruzamento de dados, foi possível mapear e distinguir os cenários regionais no tocante a hábitos de leitura, frequência a bibliotecas, domínio de língua inglesa e uso de tabaco, álcool, remédios e drogas não lícitas.
A UFMA, que lidera o ranking dos universitários que não leem nada, ficou em quarto lugar entre os menos assíduos à biblioteca da universidade - 28,5% dos graduandos não a frequentam. O primeiro lugar nesse quesito ficou com a Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio): metade de seus alunos esnoba o espaço.
"O aluno não vai à biblioteca porque não tem acesso a livros ou porque não está estudando? Não sabemos por que ele não vai, mas devemos pensar", afirma o coordenador nacional do Fórum Nacional de Pró-reitores de Assuntos Comunitários e Estudantis (Fonaprace), Valberes Nascimento. O curioso é que a taxa de frequência a bibliotecas é relativamente alta no País: mais da metade das universidades tem índice superior a 80%.
Inglês. A média nacional de bom inglês entre universitários é de 38,31%. Das 56 universidades cujos dados foram levantados pelo Estado, a que apresentou o menor índice de domínio do idioma foi a federal do Acre (Ufac), onde apenas 8,42% dos graduandos se consideram em um nível adequado de inglês. Os números também são muito baixos na federal do Recôncavo da Bahia (8,54%), da Fronteira Sul (9,40%), do Amapá (9,97%) e na federal de Rondônia (14,77%).
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Obs.: É essa população "educada" que está sendo formada para lecionar em escolas, universidades, a escrever em jornais e ocupar toda a cultura daqui a alguns anos. É essa gente que protesta contra a globalização, contra o aquecimento global, contra o livre mercado, contra a mercantilização da cultura. Essa gente é totalmente fake!

segunda-feira, 27 de junho de 2011

O que nunca foi dito...

Quando a lágrima escorre,
Perolada, marchando sobre a face
Paira aí entre os ventrículos
Um momento de dor...

Quando a lágrima paira,
Escorregando entre o minuano
Entre os átomos,
Percorre como dor,
Um momento de solidão.

Mas, se de súbito surges,
Segue o sangue, o ar em meus pulmões
E meu ser voa como dantes,
Como as notas sangradas pelo violão

Surgem sóis e pássaros livres,
Surgem passos e passantes
Surgem a terra, a água e o ar
O fogo em mim, como nunca visto antes

Porque és em essência
O sentido de que houve
Do que existe e do que haverá
És a medida entre o ceu e a terra
És o fulgás e o que permanecerá.

Foto: X. Maya

sábado, 21 de maio de 2011

Pedido

Não dê-me tua face, floreio ou riso
Negue-me os gestos mais delicados
Negue-me o externo o verniz proferido
Negue-me o volume extridente dos brados

Negue-me o pão, o vinho ou o trigo
Furte-me o sol, o azul do firmamento
Pode-me a arte, os versos a estalar em gritos
Tudo, a essência do ser, os fundamentos

Mas não tua existência mesmo que em conflito
Não negue-me um fio de esperança
Pois para que a vida, para que a existencia valha
É preciso você: desde já minha quintessência
O bálsamo para o corte de mil navalhas.

A gota de orvalho que paira sobre a folha,
O voo do pássaro, a liberdade enfim
És o que me inspira, o que me esmera
Para um amor, ainda que seja de festim.

domingo, 1 de maio de 2011

O Homem Conservador. Por: Titus Burkhard

Deixando de lado quaisquer matizes políticos que a palavra possa ter, o conservador é alguém que procura conservar. E para dizer se ele está certo ou errado deveria ser suficiente analisar o que é que ele quer conservar. Se as formas sociais que defende – pois sempre se trata de formas sociais – estão em conformidade com o objetivo mais elevado do homem e correspondem às suas necessidades mais profundas por que não deveriam ser elas tão boas quanto – ou mesmo melhores que – qualquer coisa de novo que a passagem do tempo possa trazer à luz?

Pensar desta maneira seria normal, mas o homem de hoje já não pensa normalmente. Mesmo quando não despreza automaticamente o passado e vê o progresso técnico como fonte de todo bem da humanidade, ele normalmente tem um preconceito contra qualquer atitude conservadora, pois, consciente ou inconscientemente, está influenciado pela tese materialista de que todo "conservar" é inimigo da vida em constante mudança e assim leva à estagnação.

O estado de necessidade em que hoje se encontra toda comunidade que não acompanhou a marcha do progresso técnico parece confirmar essa tese; mas as pessoas se esquecem que isso não é tanto uma explicação quanto um estímulo para um desenvolvimento ainda maior. Que tudo deva mudar é um dogma moderno que busca sujeitar o homem à própria mudança; e é avidamente proclamado, mesmo por aqueles que se consideram cristãos sinceros, que o próprio homem está nas garras da mudança; que não somente os sentimentos e pensamentos passíveis de serem influenciados pelo ambiente estão sujeitos à mudança, mas também o próprio ser do homem.

Dizem que o homem está a caminho de se desenvolver mental e espiritualmente até se transformar em um super-homem, e, consequentemente, o homem do século XX é visto como ume criatura diferente do homem de antigamente. Em meio a tudo isso, esquece-se a verdade, proclamada por toda religião, de que o homem é o homem, não meramente um animal, porque tem dentro de si um centro espiritual que não está sujeito ao fluxo das coisas. Sem este centro, que é a fonte da capacidade humana de tecer julgamentos – e portanto pode ser chamado de órgão espiritual que veicula o senso da verdade –, não poderíamos nem mesmo reconhecer a mudança no mundo que nos rodeia, pois, como disse Aristóteles, aqueles que declaram que tudo, inclusive a verdade, segue um fluxo constante se contradizem: pois se tudo muda, sobre qual base eles podem formular uma afirmação válida?


É preciso dizer que o centro espiritual do homem é mais do que a psique, sujeita como ela está a instintos e impressões, e também mais do que o pensamento racional? Há algo no homem que o liga ao Eterno, e este algo encontra-se precisamente no ponto aonde "a Luz que ilumina todo homem que vem ao mundo" (João, 1, 9) toca o nível das faculdades psico-físicas.

Se esse cerne imutável no homem não pode ser captado diretamente – como também não o pode o centro sem dimensões de um círculo – as vias de aproximação a ele podem não obstante, ser conhecidas elas são como os raios que correm em direção ao centro de um círculo. Essas vias de aproximação constituem o elemento permanente em toda tradição espiritual e, como linhas mestras tanto para a ação quanto para aquelas formas sociais que se dirigem para o centro, constituem a verdadeira base de toda atitude verdadeiramente conservadora. Pois o desejo de conservar certas formas sociais só tem sentido – e essas formas só podem perdurar – se elas dependerem do centro intemporal da condição humana.

Em uma cultura que, a partir de suas próprias fundações (graças à origem sagrada), está dirigida para o Centro espiritual e portanto para o eterno, a questão do valor ou da ausência de valor de uma atitude conservadora não se coloca; a própria palavra para isso não existe. Em uma sociedade cristã, os homens são cristãos – mais ou menos consciente e deliberadamente –, em uma sociedade islâmica eles são muçulmanos, em a uma sociedade budista eles são budistas, e assim por diante; se alguém não o é simplesmente, não pertence à sua respectiva comunidade e não é parte dela, antes coloca-se fora dela ou lhe é secretamente inimigo.

Uma cultura como essa vive de uma força espiritual que imprime sua marca em todas as formas, desde a mais elevada até a mais contingente, e ao fazer isso ela é verdadeiramente criativa; ao mesmo tempo, ela tem necessidade de forças de conservação, sem as quais as formas logo desapareceriam. Basta que tal sociedade seja mais ou menos integral e homogênea para que a fé, a lealdade à tradição e uma atitude conservadora espelhem-se umas às outras como círculos concêntricos.

A atitude conservadora só se torna problemática quando a ordem da sociedade, como na Europa moderna, já não é determinada pelo eterno; a questão então se coloca, seja qual for o contexto, de saber quais fragmentos ou ecos da ordem outrora oniabarcante mereceram ser preservados. Em toda configuração da sociedade (e uma configuração hoje segue-se à outra em uma sucessão cada vez mais rápida), os protótipos originais nela estão refletidos de uma ou de outra maneira. Mesmo se a estrutura anterior é destruída, alguns de seus elementos individuais continuam efetivos; um novo equilíbrio – por mais deslocado e incerto que seja – é estabelecido depois de cada rompimento com o passado. Certos valores centrais são irremediavelmente perdidos; outros, mais periféricos em relação ao plano original, tomam a dianteira. A fim de que estes também não sejam perdidos, pode ser melhor preservar o equilíbrio existente do que arriscar tudo em uma tentativa incerta de renovar o todo.

Tão logo esta escolha se apresenta, a palavra "conservador" entra em cena – na Europa, ela foi adotada pela primeira vez na época das guerras napoleonicas –, e o termo fica marcado pelo dilema inerente à própria escolha. Todo conservador é imediatamente suspeito de querer apenas preservar seus privilégios sociais, por pequenos que sejam. E nesse processo a questão de saber se o objeto da preservação vale a pena ser preservado é deixada de lado. Nas por que a vantagem pessoal deste ou daquele grupo não poderia coincidir com a Justiça? E por que determinadas estruturas e determinados deveres sociais são poderiam ser proveitosos para uma certa inteligência?

Que o homem raramente desenvolve a inteligência quando carece dos estímulos exteriores correspondentes é provado pelo pensamento do homem comum de hoje em dia; só muito poucos – em geral, somente aqueles que em sua juventude experimentaram um fragmento da "velha ordem", ou que tiveram a oportunidade de visitar uma cultura oriental ainda tradicional – podem imaginar Quanta felicidade e paz interior uma ordem social estratificada de acordo com as vocações naturais e as funções espirituais pode oferecer, não somente às classes dominantes, mas também às classes trabalhadoras.

Em nenhuma sociedade humana, por mais justa que ela possa ser como um todo, as coisas são perfeitas para todo indivíduo, mas há uma prova segura de se uma dada ordem oferece ou não felicidade à maioria: esta prova é inerente a todas aquelas coisas que são feitas, não com algum propósito material, mas com alegria e devoção. Uma cultura em que as artes são criação exclusiva de uma classe especialmente educada – de maneira que não há mais nenhuma arte popular ou nenhuma linguagem artística universalmente entendida – fracassa complemente a este respeito. A recompensa exterior de uma profissão é o rendimento que sua prática pode assegurar; mas sua recompensa interior é que ela deveria lembrar o homem do que, por natureza e vindo de Deus, ele é e a este respeito não são sempre as ocupações mais bem sucedidas que são as mais felizes.

Cultivar a terra, orar por chuva, criar alguma coisa significativa a partir da matéria bruta, compensar a carência de alguns com o excesso de outros, governar estando ao mesmo tempo preparado para sacrificar a própria vida pelos governados, ensinar por amor à verdade – estas, entre outras, são as ocupações interiormente privilegiadas. Poder-se-ia perguntar se, como resultado do "progresso", elas aumentaram ou diminuíram.

O homem tornou-se sua própria medida, diriam muitos hoje, quando, como trabalhador, ele posta-se diante de uma máquina. Mas a verdadeira medida de um homem consiste em que ele possa rezar e abençoar, lutar e governar, construir e criar, plantar e colher, servir e obedecer – todas essas coisas pertencem ao homem.

Quando, hoje, certo elemento urbano exige que o sacerdote despoje-se dos sinais de sua função e viva o máximo possível como os outros homem, isto apenas prova que esses grupos já não sabem o que o homem fundamentalmente é; perceber o homem no sacerdote significa reconhecer que a dignidade de sacerdote corresponde infinitamente mais à natureza humana original do que o papel representado pelo homem "comum". Toda cultura geocêntrica tem uma hierarquia mais ou menos explícita de classes sociais ou "castas". Isto não significa que ela considere o homem como uma mera parte que só encontre sua realização no povo como um todo; significa, ao contrário, que a natureza humana é em si mesma demasiado rica para que todos a todo momento estejam aptos a realizar todos os seus aspectos. O homem perfeito não é a soma total, mas o cerne ou a essência de todas as várias funções. Se as sociedades hierarquicamente estruturadas puderam se manter por milênios, isto se deve não à passividade dos homens ou ao poder dos governantes, mas ao fato de que tais ordens sociais correspondiam à natureza humana.

Há um erro muito difundido que diz que a classe naturalmente conservadora é a burguesia, que originalmente identificou-se com a cultura das cidades, onde se originaram todas as revoluções dos últimos quinhentos anos. A burguesia, de fato, especialmente como conseqüência da Revolução Francesa, desempenhou um papel conservador, e ocasionalmente assumiu alguns ideais aristocráticos – não, contudo, sem tirar partido deles e gradualmente falsificá-los. Em meio à burguesia, sempre houve conservadores que se baseavam na inteligência, mas desde o começo eles foram minoria.

O camponês é em geral conservador; ele o é, por assim dizer por experiência, pois ele sabe – mas quantos ainda sabem? – que a vida da natureza depende da constante auto-renovação de um equilíbrio de inumeráveis forças inter-relacionadas, e que não se pode alterar nenhum elemento deste equilíbrio sem comprometer o todo. Basta simplesmente desviar o curso de um ribeirão para alterar a flora de toda uma área ou eliminar uma espécie animal, permitindo imediatamente a outra espécie crescer de maneira devastadora. O camponês não acredita que se possa produzir chuva ou sol a bel prazer.

Seria errôneo concluir daí que o ponto de vista conservador está acima de tudo ligado ao sedentarismo e ao apego do homem ao solo, pois já se demonstrou que nenhuma coletividade humana é mais conservadora do que os nômades. Em todo o seu constante vagar, o nômade está atento em preservar sua herança de linguagem e costumes; ele resiste conscientemente à erosão do tempo, pois ser conservador não significa ser passivo.

Esta é uma característica fundamentalmente aristocrática; neste ponto, o nômade assemelha-se ao nobre, ou, para ser mais preciso, a nobreza que se origina na casta guerreira tem necessariamente muito em comum com o nômade. Ao mesmo tempo, contudo, a experiência de uma nobreza que ainda não foi estragada pela vida da corte e da cidade, que ainda está ligada à terra, assemelha-se à do camponês, com a diferença que ela abrange relacionamentos territoriais e humanos muito mais amplos. Quando, pela hereditariedade e pela educação, a nobreza está consciente da identidade essencial entre as forças da natureza e as forças da alma, ela possui uma superioridade que dificilmente pode-se adquirir de outra maneira; e todo aquele que está consciente de uma genuína superioridade tem o direito de insistir nela, do mesmo modo que em qualquer arte o mestre tem o direito de preferir seu próprio julgamento ao daquele que é inexperiente.

Há que se entender que a superioridade da aristocracia depende tanto de uma condição natural quanto de uma condição ética: a condição natural é que, dentro da mesma família ou tribo, pode-se, em termos gerais, depender da transmissão por herança de certas qualidades e capacidades; a condição ética expressa-se no dito "noblesse oblige": quanto mais elevado o nível social – e seu privilégio correspondente – maior a responsabilidade e a carga de deveres; quanto mais baixo o nível, menor o poder e em menor número os deveres, até a existência eticamente indiferente das pessoas passivas. Se as coisas não são sempre perfeitas, isto não se deve principalmente à condição natural da hereditariedade, pois esta é suficiente para garantir indefinidamente a natureza homogênea de uma "casta"; o que é muito mais incerto é o cumprimento da lei ética, que exige uma combinação equilibrada de liberdade e dever. Não há sistema social que exclua o mau uso do poder; e se houvesse algum, ele não seria humano, desde que o homem só pode ser homem se ele se conforma simultaneamente à uma lei natural e a uma lei espiritual. O mau uso do poder hereditário, portanto, nada prova contra a lei da nobreza, ao contrário, só o exemplo daquelas poucas pessoas que, quando privadas do privilegio hereditário, nem por isso renunciam à sua responsabilidade hereditária já basta para provar a tendência ética da aristocracia. Quando, em muitos países, a aristocracia caiu por causa de sua própria autocracia, isto se deu não tanto por que ela foi autocrática para com os níveis inferiores, mas antes porque ela foi autocrática em relação à lei superior da religião, a única que forneceu à aristocracia sua base ética e moderou com a misericórdia o direito dos fortes.

Desde a derrocada, não apenas da natureza hierárquica da sociedade, mas de quase todas as formas tradicionais, o homem conscientemente conservador encontra-se por assim dizer em um vácuo. Ele se acha só em um mundo que, com toda a sua escravidão opaca, jacta-se de ser livre e, com toda a sua uniformidade compressora, jacta-se de ser rico. Gritam-lhe aos ouvidos que a humanidade está desenvolvendo-se continuamente em sentido ascendente, que a natureza humana, depois de se desenvolver por tantos e tantos milhões de anos, passou agora por uma mutação decisiva, que a levará à sua vitória final sobre a matéria. O homem conscientemente conservador encontra-se só entre notórios bêbados, é o único desperto em meio a sonâmbulos que tomam seus sonhos por realidade. Pelo entendimento e pela experiência, ele sabe que o homem, com toda a sua paixão pela novidade, continua fundamentalmente o mesmo, para o bem ou para o mal; as questões fundamentais da vida humana têm sido sempre as mesmas; as respostas a elas são conhecidas desde sempre, e, na medida em que podem ser expressas em palavras, têm sido transmitidas de geração em geração. O homem conscientemente conservador interessa-se por esta herança.

Visto que quase todas as formas tradicionais de vida estão destruídas, raramente se concede a ele participar de um trabalho universalmente útil e significativo. Mas toda perda implica em um ganho: o desaparecimento das formas pede por uma provação e um discernimento; e a confusão no mundo que nos rodeia é um chamado para que, desviando-se de todos os acidentes, voltemo-nos para o essencial.

sábado, 16 de abril de 2011

Quando Surges...

Quando surges para mim, Esquiva, faceira, prudente... Quando surges como trovões A bradar no firmamento... Aguardo passar o inverno, Eu que quase sempre imprudente, Sei certo que se fará outono, E você flor, se despirá, Peça por peça, pétala por pétala, Qual folhas usurpadas pelo vento. Quando surges para mim, Como se quisesse sumir, Faze-se aparecer pelo contraste Da face a negar-me o olhar, E o seio crepitar-se em ânsias. Paciente mais uma vez, Vejo-a, sinto-a embora não a tenha... Não a tenho por não estar ainda, Plenamente em seu ser, em espírito, Pois a carne e os espasmos Apodrecem com o tempo. Por isso quero estar em você Em espírito, eu quero não tua carne Mas sim tua eternidade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CURSO! UMA ANÁLISE DO HOMEM MODERNO - INSTITUTO SER FUNDAMENTOS.

1º Curso! Uma análise do homem moderno.




O Istituto Ser Fundamentos começa suas atividades de modo bastante modesto, porém contundente. O primeiro curso que se iniciará dia 02/04/2011 no Colégio Santo Antônio de Barbalha a partir das 9:00 h tem por título "Uma análise do homem moderno - Uma releitura filosófica". O curso tem por objetivo estudar e desenvolver uma análise de clássicos da FILOSOFIA e da literatura moderna que demonstram de forma artístico-filosófica as transformações do modo do homem ver, entender e relacionar-se com o mundo. O Instituto Ser Fundamentos vem ofertar a possibilidade de uma reflexão filosófica através das obras de autores consagrados buscando identificar o que motivaram e qual o elenco de transformações humanas que movem o curso da micro-história que nada mais é que a história de cada um de nós. Não há como negar as transformações culturais em vista, seja pela notável decadência da cultura ocidental, seja pelo declínio da civilização judaico-cristã ou pela quase total anomia dos valores morais. Mas onde acharíamos pistas do que foi perdido? Que método investigar? Por onde começar? A lista de autores é bem sugestiva, porém, o estudo de modo contínuo, intercalados por uma gama de outros textos introdutórios nos dará uma perspectiva mais abrangente em relação ao problema. Sinta-se convidado.


ROTEIRO DE ESTUDOS.

1. Como Ler um Livro. Autores: Mortimer Adler e Charles Von Doren;

2. Crime e Castigo. Autor: Fiódor Dostoiévski;

3. O Estrangeiro. Autor: Albert Camus;

4. Em Busca de Sentido. Autor: Viktor Frankl;

5. A Rebelião das Massas. Autor: Ortega y Gasset;

6. O Coração das Trevas. Autor: Joseph Conrad;

7. Apologia de Sócrates. Autor: Platão;

8. Os Irmãos Karamázov. Autor: Fiódor Dostoiévski;

9. O Saber dos Antigos. Autor: Geovanni Reale;

10. O Vermelho e o Negro. Autor: Stendhal;

11. O Jardim das Aflições. Autor: Olavo de Carvalho;

12. O Homem sem Qualidades. Autor: Robert Musil;

13. A Crise do Mundo Moderno. Autor: René Guénon;

14. O Admirável Mundo Novo. Autor: Aldous Huxley;

15. O Homem Revoltado. Autor: Albert Camus;

16. A Divina Comédia. Autor: Dante Alighieri.

Valor do curso: R$ 30,00 Local: Colégio Santo Antônio - Barbalha.

Inscrições e informações: (88) 99806557 Antônio Sávio.

Livros: A maioria dos livros podem ser encontrados no site http://www.erealizacoes.com.br/

TURMAS EM CRATO Possíveis interessados do Crato, o curso será ministrado com a formação mínima de 10 alunos com data prevista de início para dia 23.

domingo, 27 de março de 2011

Educar é elevar o espírito.

A busca do conhecimento é algo inato ao ser humano. Ninguém conscientemente prefere viver nas trevas da ignorância podendo facilmente acessar a luz da inteligência. No entanto, o estudo requer a identificação de um chamado interior, para que tudo aquilo que se queira aprender passe a ter um contexto adequado a cada um de nós. Nada mais é do que encontrar uma razão pela qual estudar um determinado assunto se torne importante em nossas vidas. Mas se uma mudança de postura começa dentro de nós mesmos, o segundo passo é mudar o nosso ambiente – seja restaurando o mínimo de razão nele; seja abandonando-o de uma vez por todas. E, como se fossem círculos concêntricos, essas mudanças de atitude devem se expandir, criar um vínculo entre as pessoas, num sentimento mútuo de que é realmente possível tornar menos insuportável a nossa vizinhança, o nosso bairro e, por que não dizer?, a nossa cidade, o nosso país. Qualquer ensinamento parte de precisas definições. Os conceitos fundamentais de um assunto são o que dão suporte ao que se eleva como conhecimento. Por outro lado, há sempre uma tentação irascível de saltar diretamente às tendências mais modernas, sem a preocupação de uma formação anterior. Também não seria ousadia dizer que, num empenho em buscar um pensamento estritamente novo e original, pode-se acabar por recusar ou esquecer uma tradição de pensamento já existente. Longe de negar o que ainda se possa fazer do futuro, mas nos privarmos do que possuímos de forma efetiva em sólidos fundamentos, reinventando uma cultura sem antes herdarmos as tradições existentes que expressam realmente o que somos, é repetir a experiência de formação de uma classe intelectual que não enxerga além de seus cacoetes sem sentido. Quando falamos em cultura, devemos abarcá-la em todas as suas possibilidades para definirmos bem o motivo que nos leva à manutenção de uma tradição. Grosso modo, e para não me estender demais neste tema que é, em verdade, o pano de fundo do que pretendo discutir aqui, toda uma tradição e seus costumes dedicam-se à unificação. É um elo entre um povo ou nação, aquilo que o torna único, que cria vínculo entre pessoas. Assim, tais tradições e costumes expressos principalmente nas artes têm apenas uma função: educar. Certamente os costumes e tradições vão evoluindo junto com uma cultura universal. Note que universal aqui é usado como uma ligação com o Eterno. Todavia, na ânsia de buscar uma cultura popular, tolera-se ignorar uma ligação – ou diálogo – com essa cultura universal. Não criamos a literatura, tampouco o teatro ou a pintura. Tratam-se de formas universais de expressão cultural. E ignorando este diálogo cria-se o que convencionalmente chamamos de crise. Segundo o filósofo Mário Ferreira dos Santos*, a palavra grega crisis significa separação, abismo. Onde há crisis, há uma separação, e separar é abrir distância entre pares. Mas como surgiria a ação de separar se não existisse aquilo que une? Eis aqui o ponto de vista acerca do coração desta crise: qual o elo entre os brasileiros? O que nos une? Nesta direção, observamos o fato de que habitua-se a memória para absorver somente alguns adornos, pouco se ocupando com os valores mais intrínsecos. Porque mesmo uma tradição ou costume pode ter qualidades nefastas. Na civilização Maia, para dar um exemplo, era costume extrair o coração de pessoas vivas em sacrifício aos deuses, enquanto batucavam-se ritmos ritualescos. E creio eu não haver um ser vivo não-dependente de haloperidol que se entusiasme na presença de tão infausta tradição. O que então devemos resgatar culturalmente? Tudo aquilo que possa se conectar com o Eterno, livrando-se, sem nenhuma culpa, daquilo que é lutuoso, imprestável e que fatalmente nos diminui. Educar é elevar o espírito. E só é possível uma ascensão quando olhamos para o alto, quando buscamos acessar o que nos parece inatingível. É uma forma de superação que traz consigo a possibilidade de crescimento, seja como indivíduo; seja como nação.

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* Santos, Mário Ferreira dos. A Filosofia da Crise, São Paulo, Editora Logos, 1956

Autor: Rodrigo Chiuso


Fonte: http://www.diogochiuso.com


Nota: Veremos até quando a arrogância patética do Brasil vai insistir em ignorar o Mário. Os frutos disso já estamos colhendo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Poeminha quase brega.

Os sonhos de outonos distantes,
As astes dos trigais maduros
Dobrados pela ventanias,
Os monjolos, os moinhos carregados de tempo
Tudo isso é jovem, mui recente,
Perto de tua companhia.
És portanto algo novo,
Com gosto de outros tempos,
De um intuir, de pressentir notas ocultas.
És para mim um saber sem prova,
Uma latência, um sabor.
Uma existência quase íntima,
Mas ainda por existir.
És tudo que eu sei, ou do que,
Outrora saberia.
És o que eu sei que há,
Mas se fosse ter que contar,
Nem em versos poderia.
És o incontável,
Mas que porém, o tato,
A visão, e o palato, apreciam.

Foto: A noite Americana
Autor: R de Rien

quarta-feira, 9 de março de 2011

Chove



Chove em silêncio lá fora
Chove e troveja aqui dentro
Escorrem lágrimas nas calhas
Como sangue em veias
Vazadas pela lâmina fria das navalhas

Chuva de vento, chuva-vendaval
Um fuzilar de trovões dentro de mim
Por quase nada, muito pouco
Uma ira por ausências que não se explicam
Iras reais, e amores de festim

Mundo silentes, invisível
Risível para que não vê
Visões de tormentas e alegrias
Irresistível para quem te capta
Para quem te prova
Intransponível, o não te ter.

O cosmo e o caos em uma tez
Um simples rosto?
Complexo ser...o caos é tua ausência
O cosmo gira o redor do teu ser.

Foto: Mário Ferreira

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Quase Lágrima

Ainda estarei na pétala da rosa
Qual orvalho que paira
A espera de um raio de sol
Que o vaze, fazendo-o prisma

Ainda sim, estarei em raízes
Pois são nos bastidores do solo
Que fazem o espetáculo das folhas
Dos verdes...

Ainda em silêncio, te vejo
Quando passa minuano, em silêncio
Furacão de orgulho, olhos em fogo
Marcha forte...e um coração que não me engana.

Ainda em silêncio - tua face
Moldada por Deus-,há de gritar
Há de gritar meu nome,
Pois não há silêncio para um poeta que chora
Tampouco para um peito silente
E orgulhoso que ainda ama.

Foto:Lucy da motta

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tudo Flui?



Em algumas linhas a tarde se vai
Os amores vãos vão como os pássaros
Em breves linhas as esperaças
Escorrem pelas mãos,
Qual gotas de orvalho que se esvaem

Em um olhar o aqui se torna distante
O agora agora torna-se antes
A presença de antes é agora o lembrar
É a ausência que torna-se gritante

Em breves momentos sem ti
Sente-se eternos tormentos
Tormentas de uma escaler sem velas
Náufrago sem Norte, sem sabe aonde ir.

Em breves momentos a cicuta
Sorvida como licor dos mais brandos
Pois a morte atrai o solitário
Como o vício atrai as hordas de vândalos.

Foto: Alexander Kharlamov

domingo, 6 de fevereiro de 2011

QUANDO A ARTE LUTA CONTRA A DECADÊNCIA


Mário Ferreira dos Santos

A razão quis roubar-nos a ilusão, o sonho, a fantasia. A libertação do homem (esse sofredor animal de milénios de tiranias) será iniciada ao quebrar as algemas que a razão, mal orientada, construiu para acorrentar-lhe o espírito.
O homem de amanhã filosofará como Apolo e Dioniso. Então a arte ajudará a redimir os homens, dizem muitos, porque somente pela arte o homem se salvará, mas só quando pela arte puder ser ele salvo.
Para Nietzsche a arte é o "movimento contrário" à decadência que se processa no Oriente. E, para ele, o filósofo "artista" é o conselho mais elevado da arte. É pelo caráter tumultuário de nossa vida de criação, que toda e qualquer tentativa de desejarmos emprestar fórmulas únicas representa uma violentação. Ademais, querer impor uma única perspectiva é colocar-se do ângulo de uma verdade para todos, fora da qual não há salvação. Lutar por suas ideias é um direito e um dever, mas também o é respeitar as alheias. Há um direito de ser diferente, de "não ir por aí". Igualmente em arte seria o perecimento da arte, seria estrangular o poder criativo do artista. Que se orgulhem as rãs de não ter asas, mas respeitem os pássaros em seus voos.
O que devemos desprezar na arte moderna é o artificialismo que se apresenta como elementar, primitivo. É o que sôbre-excede ao natural, o requinte de uma desvitalização, da impossibilidade de criar.



Estamos, inegavelmente, num instante trágico da história humana. Assistimos ao esquecimento de tantas verdades que foram caras à humanidade. Vemos a instalação de uma escala de valores utilitários, que dominou e domina. Há esperanças de algo novo, mas ao mesmo tempo, indecisão quanto às diretrizes desse futuro. A humanidade deseja renovar-se porque cansou de sua descrença. É o fruto de sua longa deserção da vida, porque os senhores da vida não souberam deixá-la viver e gozar em paz o seu quinhão. As camadas mais fracas são sempre as primeiras a sofrer nas horas de sacrifício, de prejuízo e de falta, e as últimas a ganhar nas horas da vitória. Aos erros dos senhores da vida, sobrevêm o sacrifício dos pequenos ...
Devemos desprezar na arte moderna o seu artificialismo, repetimos. E este se apresenta muitas vezes com as cores da originalidade, da simplicidade, do primitivismo. Mero produto consciente de uma eleição desejada, em sua incompletação e em seu esboçar-se, e quer dar a impressão de obra nascida num instante de inspiração. O pintor vazio, que nada tem a dizer, traça três ou quatro pinceladas simbólicas, ou significativas, para repetir um tema já usado, gasto, explorado, para que reflita no espectador o sentir que está na moda.
Nada mais decepcionante do que essas exposições de arte, onde centenas de novos são apresentados sem refletirem qualquer personalidade, copiando mal, e que a crítica fácil depois elogia, classifica, compara, quando não lhes atribui características de genialidade.
Talvez um dia, quando a nossa era for examinada pela posterioridade, a falta de dignidade que se observa em todas as manifestações humanas seja o característico mais saliente que a distinguirá das outras.

É a decadência que vemos instalar-se em toda a parte. Escritores medíocres competem em glória com sumidades; poetas sem poesia gritam contra a morte da poesia; pensadores sem pensamento afirmam a inanidade do pensar; artistas sem imaginação chamam pela beleza exclusiva da cópia; pintores, que não sabem pintar, usam de uma liberdade de expressão que não expressa coisa nenhuma.
Nunca na história humana se justificou tanto a fábula da raposa sem cauda do que nesta que atravessamos. O homem de valor notório nega tudo quanto não tem. O mau orador nega o valor da oratória; o incapaz de escrever coi sas profundas nega o valor da profundidade; o borra-qua-dros nega o valor da pintura do passado. Improvisam-se genialidades com a rapidez das notícias e das modas.
Três anos bastam para não se compreender nem sentir o corte de uma roupa, o padrão de um par de sapatos. Aos vestidos compridos sobrevêm os vestidos curtíssimos, e vice-versa. Uma estação, para outra, distancia tanto o modo de vestir, como antigamente distanciavam os lustros, os séculos até. É à velocidade que eles emprestam o porquê de tais factos. Propriamente a incapacidade de duração das afeições e gostos nunca foi uma prova de superioridade, e sim de inferioridade. São precisamente os "ventoinhas" que se deixam arrastar pelo agradável do passageiro ou pelo passageiro do agradável.
Não há um sentido dominante de querer a beleza. O provisório ameaça tudo, e ao domínio dos sucessos, dos "big-light-names", sucede o esquecimento sepulcral. Quantos heróis da humanidade esquecidos nesses três decénios, que, dentro talvez de outros três lustros, ninguém mais saberá dizer o que eram.
Mas, de entre cem pequenos artistas supérfluos, um ou outro desponta. Há nomes que vencerão o tempo. Se olharmos vinte anos para trás, veremos na literatura quantas promessas que despontavam e vemos, hoje, quantas realidades dessas promessas que ficaram. E das esperanças de hoje deixemos que sobrevenham mais vinte anos, para que fiquemos sabendo quantas são meras aparências.
O vazio expressional de certa arte é o que determina de início a sua morte. Quem nada diz para a vida ou para os homens, mas apenas explora um sentimento passageiro, uma emoção ou simpatia momentânea, e não fixa, em cores firmes, o que deseja expressar, não conseguirá sobreviver! Muitos artistas proclamam que não desejam ir além de si, e que lhes basta a notoriedade, e que a glória não lhes é o estímulo, e preferem a vitória do momento que passa, cuja fruição lhes está às mãos, e não trocarão o prato de lentilhas do renome pela esperança de serem amados amanhã, e compreendidos por outros, à custa, muitas vezes, da incompreensão de seus contemporâneos. Não os acusemos. São apenas mercadores das emoções e dos gostos transeuntes, embora chamem de novas mensagens as suas obras. Mensageiros da novidade e do modismo. Não pertence aos mercadores o desejo da imortalidade, mas aos estetas.
Em meio desses exploradores da arte, desses valores convencionais, o leitor sente-se perdido. Não sabe escolher, nem guiar-se. O elogio fácil, a glória proclamada de uns por outros, infunde ao leitor a convicção de que encontra pela frente o definitivo. À sua decepção sucedem decepções. Nada lhes dizem de novo. Contam-lhe apenas o que já sabe, o que já está cansado de sentir. Emocionam-no passageiramente, porque lhe despertam os instintos mais facilmente despertáveis, que não lhe deixam, porém, ressonâncias, mas um desgosto que não sabe definir.
Como todas as tendências buscam justificar-se, essas também possuem sua casuística, sua lógica, seus argumentos, suas teorias. Todas atitudes em arte são justificáveis; basta que aceitemos um ou outro postulado. Mas o que marca o valor de uma obra é alguma coisa que está ligado ao tempo. Não é exclusividade de nossa época os literatos que envelhecem em poucos anos. Na velha Alexandria e em todas as culturas, houve milhares de outros, cujos nomes estão no pó dos arquivos. Também foram expressões que ofuscaram. Pertence à história da arte a regra geral de que os artistas que obtêm vitórias fáceis não são os que deixam seu nome como um exemplo. Todo artista, que, ainda jovem, se julga com direito à glória, pratica um ato de juventude, compreensível. Se todos soubessem o perigo que existe na vitória fácil, muitos desejariam a glória tardia de um Romain Rolland, de um Simões Lopes Neto.
Só a maturidade pode conhecer a verdadeira glória. Neste caso, argumentar-se com as exceções de um Castro Alves ou de Álvares de Azevedo não é suficiente, porque exceções.
Há, entre esses artistas modernos, muitos que são apenas mercadores da arte. Há pintores que apenas vendem quadros. Há escritores que apenas vendem livros. É isso uma fatalidade de nossa época, uma fatalidade impressionante, mas que devemos compreender.
Mas não neguemos que esse aspecto puramente mercantil da arte tem sido também um estímulo para grandes obras. A miséria também nos deu grandes inspirações, e é de temer que, para os artistas, a superabundância não lhes afaste da verdadeira musa.
Lembremos que, em Alexandria, havia dramaturgos que eram preferidos a Sófocles, como hoje há dramaturgos preferidos a Shakespeare. Isso não impede que Shakespeare e Sófocles atravessem os séculos, e dos outros fique apenas a memória de sua passagem.
Não somos contra os artistas menores. Quase sempre é menor o artista que se torna grande. Os artistas menores são necessários também para dar relevo aos grandes. A grandeza é apenas uma relação. E que seria dos raros se não fossem os supérfluos?
Deixemos agora falar Spengler: "Que é que hoje chamamos arte? Uma música mendaz, artificioso estrondo de massas instrumentais; uma pintura mendaz, cheia de efec-tismos idiotas e exóticos, mais próprias dos cartazes de anúncios; uma arquitetura mendaz, que cada dez anos saqueia o tesouro das formas pretéritas, para "fundar" um novo estilo, ao qual cada um faz o que lhe dá vontade de fazer; uma plástica mendaz, feia dos roubos perpetrados na Assíria, no Egito, no México. E, contudo, o gosto dos mundanos considera isso como a expressão do tempo actual Ademais o que permanece adito aos velhos ideais, é lúbrica ocupação provinciana". E prossegue: "Em lugar de se pôr ao serviço de seu simbolismo, os artistas utilizam o cadáver, a múmia da arte, o caudal das formas já usadas, para recompô-los, misturando-as, trocando-as por uma forma totalmente inorgânica. Toda a modernidade confunde variação com evolução".
Mas o que sucede hoje já sucedeu muitas vezes na história; nem sequer conserva o cunho da originalidade, a nova musa dos modernos.
Essas palavras de Spengler são o eco, no século vinte, daquelas que, no século dezenove, Nietzsche exclamou, quase quarenta anos antes:
"Do mesmo modo que os velhos recordam a mocidade e celebram festas comemorativas, assim também a humanidade se deixa levar a uma consideração da arte como uma "recordação emocionante" dos prazeres juvenis.

Talvez nunca tenha sido compreendida a arte com tanta profundidade e alma como agora, em que a magia da morte parece envolvê-la. Pensemos naquela cidade grega da Itália meridional, que celebrava suas festas gregas, um dia em cada ano, lamentando-se e chorando ao ver a barbárie estrangeira triunfar diariamente sobre os seus costumes originais; sem dúvida, nunca se saboreou este néctar com tal voluptuosidade como entre aqueles helenos moribundos. O artista passará muito breve por ser um legado do passado, e como um maravilhoso estrangeiro, cuja força e beleza faziam a felicidade dos tempos antigos, render-lhes-ão honras como não as concedemos facilmente aos nossos semelhantes. O melhor que há em nós provém talvez desse sentimento de épocas anteriores, que apenas podemos agora alcançar diretamente; já se pôs o sol, mas ainda ilumina e acalenta o céu de nossa vida, embora não o vejamos mais".
Nós, porém, continuaremos a crer nas madrugadas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Se meu mundo não fosse você.


Se meu mundo não fosse você
Ah se o mundo não fosse azul,
Fosse negro como a cor dos teus olhos,
Se o céu fosse límpido como a cor de tua pele,
E tudo que nos repele, me jogasse a você.
Ah se o mundo de todas as Marias das Dores,
Tivesse nesses poemas de hoje tão cinza,
As cores de uma fênix, que nasce das cinzas,
Que teimam em renascer dentro de mim.
Mas sei que os lírios dos campos...
Não Maria, aqui não tem lírios nos campos!
Mas se os girassóis me apontassem a tua direção,
Eu cá, um Ícaro nascido de um repente qualquer,
Acharia asas, ou uma rota qualquer
Para te achar entre ramos de flores,
Entre cores que pintam paisagens tão lindas,
Entre poemas latentes, esperando calados
Em pontos e vírgulas, estocados como o sabor
Dos vinhos, em adegas secretas dentro de mim.

Foto: J. Pedro Martins
Fonte: http://br.olhares.com/