quinta-feira, 26 de março de 2009

PRISMA


Do nada, assalta-me um latente estado de poesia
E numa só lágrima há tantos versos que ninguém
Ao vê-la sem sorvê-la, jamais imaginaria que
O prisma da luz na lágrima é tudo em cor, que eu jamais diria

Foto: X.Maya

terça-feira, 24 de março de 2009

Liberação de verbas para a cultura

Gestores municipais de cultura do Ceará estiveram reunidos em Fortaleza e ouviram do secretário estadual da Cultura, Auto Filho, a liberação de R$ 16 milhões para o Fundo Estadual de Cultura, em 2009. Dois milhões a mais que no ano passado. Metade desse valor deve ser destinado ao interior cearense. O montante será investido nos editais de apoio aos projetos oriundos da sociedade civil e em diversas áreas culturais como teatro, dança, cinema, música e artes plásticas. Durante a reunião, foi elaborado um calendário regional turístico cultural para todo o Estado que envolverá eventos promovidos pelos Municípios, Estado e União. O calendário vai ser implantado parcialmente no segundo semestre deste ano e integralmente a partir de 2010. Tem por finalidade evitar choques e superposições de acontecimentos culturais, justificou o secretário Auto Filho.Para ter acesso aos recursos, as prefeituras são obrigadas a criar a Fundação Municipal de Cultura, o Conselho ou mesmo a Secretaria de Cultura. Em todo o Ceará, dos 184 municípios apenas 90 possuem esses órgãos culturais. As cidades de Crato, Juazeiro e Barbalha, no Cariri, já têm o sistema implantado. Para a secretária de Cultura do município cratense, Danielle Esmeraldo, a parceria com o Estado ajudará a fortalecer a cultura regional, notadamente. Mas segundo ela, o valor precisa ser bem distribuído em todas as regiões cearenses e não beneficiar somente a Região Metropolitana de Fortaleza.De acordo com a secretária de Cultura de Juazeiro do Norte, Glória Maria, todo valor direcionado à cultura é importante. Entretanto, ela afirma que o valor ainda não é suficiente para cidades como Juazeiro do Norte, que é considerada uma referência quando se trata de manifestações culturais.Já o secretário de Cultura de Barbalha, Dorivan Amaro, considera a iniciativa é importante porque favorece o crescimento das manifestações culturais em todo o estado. “As ações ficavam muito centralizada na região metropolitana e este incentivo vai possibilitar que a cultura do estado cresça de forma igual, tendo em vista que a região do Cariri é muito rica culturalmente”, afirmou o secretário.


Jornal do Cariri
Postado por Tarso Araújo


Fonte: http://www.caririag.blogspot.com/

quinta-feira, 12 de março de 2009

CUTIS

Devorei-a como uma flor,
Pétala por pétala suas pretensões a santa foram caindo
Seu corpo eivado de pecados, seus lagartos e cobras
Foram fugindo das tocas

Eu, sedento pelo corpo, sugava a alma pela porta dos olhos,
Melíflua e exaltada pelo desejo, pelo gozo latente,
Pela pele em fogo e as entranhas em erupções eternas.
Eu, que achava que a devorava, fui jantar e sobremesa,
E só o percebi depois do cigarro em brasa e o aluvião de fumo em minha cara.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

FOI A NOITE

As ruas pela manhã ainda tem o cheiro do sangue
Escorrido pela madrugada.
A noite, antes bela e romântica, torna-se fulgaz,
Assim como as vidas que por ela caminham, somem,
Como a água que escorre pelo ralo e some no submundo.

O cheiro de morte, de sexo, de drogas...
As noites de hoje, é isto que inspira ou atemoriza os novos poetas.
As liras tocam em outras claves,
As danças em outros passos, as pinturas noutras cores,
Onde reflete o céu cor de chumbo e o gris da lua com seu olho medonho a nos observar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

PERDÃO


Eu, receptador do pecado alheio,
Cúmplice do gozo efêmero,
Co-autor consciente de inúmeras copulações,
Réu confesso do beijo, da arte e dos vôos para o nada.

Incentivador dos "vaga-mundos" e das "vaga-dias"
Repouso a mente cansada deste mundo do ter
No ventre das meretrizes que nada me cobram.

Deito aqui sobre o chão neste réquiem que vela
Minhas utopias vivíssimas, as lágrimas em virtude
Dos que não pude salvar.
Aqui choro, ao vê-los mortos, zumbis de sua própria exisistêcia... de terno, e gravata voraz, violenta, atando o pescoço do infame.
De cadernos nos seios, passos de colibri, a mente um Saara, um Saara.
Perdoa-me Deus, estes não pude salva-los!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cinema perde Robert Mulligan

Saiu de cena aos 83 anos, numa manhã fria de dezembro p. passado, devido a problemas com a sua motricidade cardíaca, o cineasta nova-iorquino Robert Mulligan, um dos profissionais mais competentes e sensíveis no tocante à criação de uma atmosfera e à imageria cinemática. O Caderno de Cultura vale-se do ensejo para prestar homenagem póstuma a quem nos legou algumas realizações dignas de figurarem no acervo de colecionadores exigentes para visão e revisão de seus méritos. Nossos arquivos e as fontes citadas em ‘Para Saber Mais’ serviram de consultoria para a redação deste texto.No entanto, Mulligan foi pouco festejado por roteiristas pretensiosos e metidos a saber de tudo, bem como por críticos zoilos para quem os bons cineastas têm obrigação de fazer uma obra-prima por ano ou pelo menos um êxito bilhetérico por semestre. Alguns produtores também não apreciavam Mulligan, embora o respeitassem, devido à sua exigência do “final cut”, ou seja, só aprovava seu nome nos créditos e na publicidade se pudesse dar a última palavra na malfadada sala de cortes, responsável por tantos desacertos, iniqüidades e até absurdos, como foi o conhecido caso de “Soberba” (The Magnificent Ambersons), obra-prima de Orson Welles (1942), de quem lhe remontaram o final e lhe roubaram nada menos de 58 min (pêsames para Robert Wise e Mark Robson), conforme registramos em ensaio publicado neste Caderno de Cultura em 16 out 2005.O Jovem e a II GuerraFilho de um funcionário de carreira da polícia de Nova Iorque, a quem cabia a responsabilidade pelo nível relativamente baixo de renda da família, Mulligan ainda assim pôde cursar a High School e revelar-se desde cedo um bom ledor e um jovem atento e preocupado com questões de caráter social, daí sua afinidade com os problemas dos moradores da periferia suburbana. Foi quando aos 17 anos quis ser padre para atuar nas comunidades carentes. Seus estudos teológicos foram, no entanto, interrompidos pela II Guerra (1939-45), após sua convocação, em 1943, para servir em unidade naval como radioperador, equipamento com o qual tinha afinidades.Finda a guerra, Mulligan havia amadurecido o seu pensamento e perdido suas antigas certezas em relação à religião e às suas perspectivas de ordem profissional. Sentiu crescidas suas dúvidas em face do absurdo do mundo, da estupidez da guerra, do morticínio de inocentes nos campos de extermínio nazistas e dos horrores reproduzidos em documentários projetados por setores militares. Estes, segundo Mulligan declarou tempos depois ao diretor-produtor Alan J. Pakula, o fizeram pensar na importância do veículo cinematográfico pelo seu potencial para transmitir idéias capazes de denunciar e expor as mazelas da sociedade e de contribuir para minimizar o sofrimento das classes desprivilegiadas. Perturbou-o a questão da existência e da permanência do mal, tema aliás tratado por alguns filósofos e deixado por ele no subtexto de uma de suas obras-primas e um dos melhores experimentos de horror em muitos anos: “A Face Inocente do Terror “ (The Other, de 1972) (v. filmografia essencial).A Descoberta da TV: Anos 50Em tempos de paz relativa, Mulligan encontrou trabalho como “office boy” no New York Times e depois como revisor auxiliar e mais adiante como redator de uma das equipes de reportagem. Aperfeiçoava ele seus conhecimentos sobre comunicação via rádio, quando se interessou vivamente pela televisão, tornando-se integrante ilustre da primeira geração produtora de filmes para a TV. Daí ter sido assistente de produção e logo depois de direção, quando trabalhou com o amigo Pakula e muito aprendeu com ele.Como se recordará o cinéfilo, Pakula foi o diretor proficiente de filmes como “A Trama” (The Parallax View, 1974), com respingos no assassinato de Kennedy, enquanto defendia no subtexto a tese conspiratória e denunciava a farsa do Relatório Warren, e “Todos os Homens do Presidente” ( All the President’s Men 1976), sobre o escândalo de Watergate no governo Nixon.A propósito, pode-se lembrar também de “O Assassinato de um Presidente” (Executive Action, 1973), de David Miller, e “A Pergunta que Não Quer Calar” (JFK, 1991), de Oliver Stone, para ficarmos só nestes defensores da tese de dois ou mais assassinos no caso Kennedy. Mulligan também estudou TV e cinema na prática, enquanto assistente de colegas mestres da categoria de John Frankenheimer, Robert Altman, Sydney Pollack e George Roy Hill. Casou-se em 1952 com a atriz Jane Lee Sutherland e quando completou 30 anos, em 1955, Mulligan ganhou reconhecimento como um dos principais diretores de qualidade nos dramas veiculados pela TV. Em 1957, recebeu convite para dirigir seu primeiro longa para o cinema, pois o aprendizado com aquela primeira e luzida turma e o treinamento intensivo propiciado pela TV já lhe davam competência e segurança para vôos mais altos.Surgiu assim “Vencendo o Medo” (Fear Strikes Out, 1957), um relato íntimo e perturbador do distúrbio mental de Jimmy Piersall, jogador de “baseball”, a quem o pai ignorante e dominador queria vê-lo brilhar a todo custo como astro nacional de primeira grandeza. O veterano Karl Malden como genitor e Anthony Perkins no papel do filho foram bem conduzidos por Mulligan, mas apesar do desempenho sobresselente não foram contemplados com indicações para o Oscar daquele ano. A partir desse filme, no qual parece ter havido um duelo de interpretação entre “pai” e “filho”, Mulligan revelou personalidade sensível e inteligente, cuja obra induz a estima, conforme escreveu Jean Tulard, para quem “heróis” como Jimmy são na maioria das vezes pessoas solitárias, as quais dificilmente conseguem integrar-se na sociedade. Para o dicionarista francês, Mulligan nos propiciou retratos em tons claros de seus personagens, especialmente em “Houve Uma Vez um Verão” (Summer of ’42,1971), um dos marcos do cineasta nova-iorquino, sobre o qual faremos referência quando analisarmos os anos 70.
ACERVO DE LG MIRANDA LEÃOL.G. DE MIRANDA LEÃO* Colaborador

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

UNI VERSOS EM MINHA MÃO


Sim, eu vi cometas na palma de minha mão
As esferas...fera em fera farejando a mim
Não, sim, são passos vindos do porão
São passos para o abismo. Estou chegando ao fim?

Cometa crimes, mas não por minhas mãos
São tragédias que ainda estão por vir
Cigana, se enganas que inda sou malsão
Vão, mil chagas se alojando em mim

Saturno entre os dedos, Netuno em segredo
Urano paira no dedo mindinho
Vênus que é de morte, Júpiter com muita sorte
Ora pela Terra, que rola nas linhas da minha mão
Nas linhas da minha mão, é meu começo, meio e fim

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Olho de Mulher

Os joelhos sobre a areia
Palmas das mãos, hora juntas, hora na face a aparar as lágrimas
A fé trincada entre os dentes, no brilho perolado do negro olhar.
Olhar que mira o céu, catando migalhas de nuvens.
Que os dilaceram em sua branquidão

Os joelhos sobre a areia
Agora dourada pelo tingir de lágrimas
Um sofrimento eterno
Assim como a eterna luta em manter-se vivo

De pé, cabo da enxada sobre o ombro.
E homem que a pouco era escombro
Ergue-se e fere a terra agora pelos passos

Passo a passo com a solidão,
Ombro a ombro com Deus,
Dores aos montes, e ele some num horizonte,
Fonte de um homem de coragem e orgulho sem fim.

Saudades dos homens de verdade e medo aos de festim

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

SONO


No meio da noite, após a nevoa e a bruma,
Saio para ver as ruínas dentro de mim...
Passo a pisar, e ver as estátuas degoladas.
O brilho do mármore aos pedaços refletindo a luz da lua.


Passos sobre os pântanos, restos do que foram esperanças.
Passos, lances e relances aparecem, como reflexos do que pouco lembro da minha infância
Pântanos de sangue, dores escondidas.
Feridas, abertas, arroios quase eternos. Tempos sombrios e ermos


Um passado tão presente dentre os futuros em mim
Luz ao longe, e o vôo da fênix.
O ar tangido por suas asas tocam meu rosto

O gosto volta a boca, a vista devasta a imensidão.
Dão passos o tato, o cheiro circula-me...
Há vida enfim, após a escuridão...Dentro de mim, dentro de mim...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

CONFISSÕES NOTURNAS


A mercê da horda de pecados que me perseguem.
Peco, com o ar triunfal de uma vitória hercúlea,
Peco, com o olhar sedutor no tango,
Eu manjo que peco quando a carta paira na manga.


Ao sabor do olhar sob o véu,
Das mãos sedentas de corpos nus.
Sou o vodu, das nuvens vagabundas no céu,
Sou o réu confesso que detesto este céu azul.


Estou de asas abertas no meio da noite densa,
E ai de quem pensa que os lupanares me possuem.
Estou perdidamente sob controle, e não há quem me vença,
Não há quem vença esta corja de vícios que me constroem.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Meninos Carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)

— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles . . .
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

—Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos
desamparados.


Manuel Bandeira
Petrópolis, 1921

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

QUEM?

E quem diz do espectro do homem moderno?
E quem fala das danças das fadas de facas em punho?
Quem canta aos brados seus mortos no inferno?
E inferno é estar num coração vagabundo?

Quem surge das cinzas e dos nacos de nuvens?
Quem surge da gota do sangue que infecta?
Quem trepa nos galhos, nos paus atrás dos muros?
Que espinhos a tua retina espeta?

Que leis que te regem, te apedrejam no escuro?
Que curas, que asas tu espera que te levem?
Quem pensas que sois covarde, em cima de um muro,
Que há tempos o entulho só espera que o carreguem?

VERDES FIGOS

O figos estão verdes meu caro
E não adianta fomento colhê-los
Desde a primeira dentada o dente não brilha
O ar não infesta de cheiro
O doce é muito raro
As figueiras pendem ao som dos vendavais
Prenúncio de chuvas, ânsia no peito
A terra carece dançar alegre
Com seu corpo em febre pelo fogo de mil carnavais
E chega assim cada gota tingindo a terra
E sorrí a folha que se faz lavada
Sorrí o caule, todo corpo, enfim a gleba
Sorrí todo mundo numa dança para frutificar
Para o nascer do fruto, para a razão de tua dentada

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

ÂNSIA

Na mão fechada uma rosa e no peito as dores do mundo,
No olho enfurecido, o ardor de um vulcão
A mente fixa da idéia, vento na vela,
Os passos firmes com perfeita direção

Um sonho, com a boca cheia de ar sopra as velas
E aquela idéia de mudar o mundo, fixa na mente
Parte do coração
Ação proposta de mudar, de pintar uma nova tela
De derramar um bálsamo sobre o mundo malsão

Sonho e ação dada a necessidade
De mudar, bombear o mundo com próprio coração
De soprar a bruma que oculta a verdade

De ver o que arde no âmago deste vulcão
De ler esse diário, uma lágrima de caridade
Sonho de soprar as velas com a força de um tufão.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

PESARES

Apesar de tudo, e dos sentidos que aguçamos
Como o limar de uma pedra sem fim
Permance o opaco sobre os olhos
E uma nuvem intensa sobre a paisagem

Os elefantes, pelo delírio vôam
E as borboletas diferente de antes
Rastejam a vaidade de suas asas sobre a gleba
Nada mudou, mas tudo enfim não há de permanecer o mesmo

Não ao mesmo sol a vazar sobre as arestas
Das frestas das fendas de minha porta
Corta então o tédio arenoso sobre mim
Pois a vista perdida na paisagem,

A catar as migalhas da realidade
Que me encaparam entre os dedos
E agora resta-me o medo,
Dos segredos deste fardo, que arde sobre mim

EIS TUDO DE MIM

Nas rodas desta engrenagem que mastiga meus sonhos
No solo deste palco, num ato interminável
Estou a rever a mesma cena burlesca e irascível
Onde me despertam os brados mais medonhos

Quem sou nesta imensa teia de reações bioquímico-sociais?
Sou a sombra misteriosa dentro da bruma
Sou o estalo das ondas sobre as rochas, sou a espupa
Sou os arlequins funestos dos carnavais

Sou o brilho ocre no dente do velho
Sou o escavelho fomento entre as carnes
Sou o todo, o meio, enfim, sou as partes
Que ardem no fogo de vida ou morte deste prélio

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

IN NATURA

Assim como os bites dilacerando o tempo
A correr na impulso frenético da fibra ótica...
Assim também explodem os vermelhos das rosas
Na interminável complexidade bioquímica nos campos

Sabedoria eterna que o homem que por mais que se diga mister, ainda muito ignora.
Nem as tintas de tua tela interminável
Assemelharão as sutilezas das penas, das luzes,
Das tardes, dos brilhos dos olhos...

Erguerá mil ve-las, mas tua invenção, teu escaler,
Tua nau está sujeita ao açoite dos ventos
Ventos imprevisíveis por sinal.

Falará mil linguas, mas não explicará a harmonia
Eterna que há no âmago da própria existência de cada ser vivente.
Desiste então deste colóquio cansativo,
Deita as pálpebras um instante humildemente e sente.

Ergue-se homem, com teu brado sobre a natureza,
Mas de tempo em tempos saberás que é apenas peça,
Parte ínfima das entranhas desta fortaleza.

domingo, 30 de novembro de 2008

POEMINHA

Novos dias virão apesar da chuva intensa que agora cai
Apesar do mangue que agora estamos,
Da cegueira quase eterna,
Apensar de tudo parecer tão fútil
E as lágrimas sejam tão correntes,
Correntes vão se desatar como o desabrochar das rosas
Sóis tocarão nossas face
E em face disto tudo ei de ganhar um escudo chamado poesia

sábado, 29 de novembro de 2008

VISÕES

Ao longo do jardim apenas o olhar
Sobre as flores e ao fundo a mata
O lance do olhar sobre o vôo da borboleta a dançar no ar
Chapada ameaçar o céu, guerra eterna no fim de tarde
Onde o céu ferido sagra rubro-róseo,
Pavor das fadas e gozo dos anjos caídos
No bojo dos fins de tarde, aqui onde chamamos terra
Deu hora de sangue, deu hora cinza, deu hora de sono
Descendo nova cortina, novos atores num palco negro
Onde brada um luzir de homens e mulheres
Que uma vez na terra se fizeram sangrar,
Para que suas sendas de luz nos pudessem chegar
Ao longo do céu, este outro jardim, apenas o olhar
O seio que teme o escuro que anseia o novo
Dança na roda de desejos.
Dúvida cruel:Viver na eternidade, eu floresta imensa dentro de mim
Ou a rosa singular, vivendo para o povo.
Ao longo do céu, guerra eterna no fim de tarde
Arde uma batalha de rosas, pouso do vôo de abelhas
E em mim as centelhas das cores em minha retina
E as sensações que em meu peito ardem


Foto: Beatrix Krüger

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

DESEJOS EM SILÊNCIO


Te quero...te quero com o mesmo tempo que o egito teve para crescer,
Que os carcófagos tiveram para dormir...
Te quero com a mesma força do sol,
Com a mesma calma das águas do lago, do canto cisne, do passo do leopardo.
Te quero com o mesmo tempo de mil luas a descer pelas montanhas,
Com o mesmo balanço das ondas, do sopro do vento, da insistência imóvel das rochas.
Te quero tranquilo, como o balão da tingir o céu turmalina,
Eterno como os segredos deste mundo, imortal como tua própria alma.