sábado, 16 de abril de 2011

Quando Surges...

Quando surges para mim, Esquiva, faceira, prudente... Quando surges como trovões A bradar no firmamento... Aguardo passar o inverno, Eu que quase sempre imprudente, Sei certo que se fará outono, E você flor, se despirá, Peça por peça, pétala por pétala, Qual folhas usurpadas pelo vento. Quando surges para mim, Como se quisesse sumir, Faze-se aparecer pelo contraste Da face a negar-me o olhar, E o seio crepitar-se em ânsias. Paciente mais uma vez, Vejo-a, sinto-a embora não a tenha... Não a tenho por não estar ainda, Plenamente em seu ser, em espírito, Pois a carne e os espasmos Apodrecem com o tempo. Por isso quero estar em você Em espírito, eu quero não tua carne Mas sim tua eternidade.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

CURSO! UMA ANÁLISE DO HOMEM MODERNO - INSTITUTO SER FUNDAMENTOS.

1º Curso! Uma análise do homem moderno.




O Istituto Ser Fundamentos começa suas atividades de modo bastante modesto, porém contundente. O primeiro curso que se iniciará dia 02/04/2011 no Colégio Santo Antônio de Barbalha a partir das 9:00 h tem por título "Uma análise do homem moderno - Uma releitura filosófica". O curso tem por objetivo estudar e desenvolver uma análise de clássicos da FILOSOFIA e da literatura moderna que demonstram de forma artístico-filosófica as transformações do modo do homem ver, entender e relacionar-se com o mundo. O Instituto Ser Fundamentos vem ofertar a possibilidade de uma reflexão filosófica através das obras de autores consagrados buscando identificar o que motivaram e qual o elenco de transformações humanas que movem o curso da micro-história que nada mais é que a história de cada um de nós. Não há como negar as transformações culturais em vista, seja pela notável decadência da cultura ocidental, seja pelo declínio da civilização judaico-cristã ou pela quase total anomia dos valores morais. Mas onde acharíamos pistas do que foi perdido? Que método investigar? Por onde começar? A lista de autores é bem sugestiva, porém, o estudo de modo contínuo, intercalados por uma gama de outros textos introdutórios nos dará uma perspectiva mais abrangente em relação ao problema. Sinta-se convidado.


ROTEIRO DE ESTUDOS.

1. Como Ler um Livro. Autores: Mortimer Adler e Charles Von Doren;

2. Crime e Castigo. Autor: Fiódor Dostoiévski;

3. O Estrangeiro. Autor: Albert Camus;

4. Em Busca de Sentido. Autor: Viktor Frankl;

5. A Rebelião das Massas. Autor: Ortega y Gasset;

6. O Coração das Trevas. Autor: Joseph Conrad;

7. Apologia de Sócrates. Autor: Platão;

8. Os Irmãos Karamázov. Autor: Fiódor Dostoiévski;

9. O Saber dos Antigos. Autor: Geovanni Reale;

10. O Vermelho e o Negro. Autor: Stendhal;

11. O Jardim das Aflições. Autor: Olavo de Carvalho;

12. O Homem sem Qualidades. Autor: Robert Musil;

13. A Crise do Mundo Moderno. Autor: René Guénon;

14. O Admirável Mundo Novo. Autor: Aldous Huxley;

15. O Homem Revoltado. Autor: Albert Camus;

16. A Divina Comédia. Autor: Dante Alighieri.

Valor do curso: R$ 30,00 Local: Colégio Santo Antônio - Barbalha.

Inscrições e informações: (88) 99806557 Antônio Sávio.

Livros: A maioria dos livros podem ser encontrados no site http://www.erealizacoes.com.br/

TURMAS EM CRATO Possíveis interessados do Crato, o curso será ministrado com a formação mínima de 10 alunos com data prevista de início para dia 23.

domingo, 27 de março de 2011

Educar é elevar o espírito.

A busca do conhecimento é algo inato ao ser humano. Ninguém conscientemente prefere viver nas trevas da ignorância podendo facilmente acessar a luz da inteligência. No entanto, o estudo requer a identificação de um chamado interior, para que tudo aquilo que se queira aprender passe a ter um contexto adequado a cada um de nós. Nada mais é do que encontrar uma razão pela qual estudar um determinado assunto se torne importante em nossas vidas. Mas se uma mudança de postura começa dentro de nós mesmos, o segundo passo é mudar o nosso ambiente – seja restaurando o mínimo de razão nele; seja abandonando-o de uma vez por todas. E, como se fossem círculos concêntricos, essas mudanças de atitude devem se expandir, criar um vínculo entre as pessoas, num sentimento mútuo de que é realmente possível tornar menos insuportável a nossa vizinhança, o nosso bairro e, por que não dizer?, a nossa cidade, o nosso país. Qualquer ensinamento parte de precisas definições. Os conceitos fundamentais de um assunto são o que dão suporte ao que se eleva como conhecimento. Por outro lado, há sempre uma tentação irascível de saltar diretamente às tendências mais modernas, sem a preocupação de uma formação anterior. Também não seria ousadia dizer que, num empenho em buscar um pensamento estritamente novo e original, pode-se acabar por recusar ou esquecer uma tradição de pensamento já existente. Longe de negar o que ainda se possa fazer do futuro, mas nos privarmos do que possuímos de forma efetiva em sólidos fundamentos, reinventando uma cultura sem antes herdarmos as tradições existentes que expressam realmente o que somos, é repetir a experiência de formação de uma classe intelectual que não enxerga além de seus cacoetes sem sentido. Quando falamos em cultura, devemos abarcá-la em todas as suas possibilidades para definirmos bem o motivo que nos leva à manutenção de uma tradição. Grosso modo, e para não me estender demais neste tema que é, em verdade, o pano de fundo do que pretendo discutir aqui, toda uma tradição e seus costumes dedicam-se à unificação. É um elo entre um povo ou nação, aquilo que o torna único, que cria vínculo entre pessoas. Assim, tais tradições e costumes expressos principalmente nas artes têm apenas uma função: educar. Certamente os costumes e tradições vão evoluindo junto com uma cultura universal. Note que universal aqui é usado como uma ligação com o Eterno. Todavia, na ânsia de buscar uma cultura popular, tolera-se ignorar uma ligação – ou diálogo – com essa cultura universal. Não criamos a literatura, tampouco o teatro ou a pintura. Tratam-se de formas universais de expressão cultural. E ignorando este diálogo cria-se o que convencionalmente chamamos de crise. Segundo o filósofo Mário Ferreira dos Santos*, a palavra grega crisis significa separação, abismo. Onde há crisis, há uma separação, e separar é abrir distância entre pares. Mas como surgiria a ação de separar se não existisse aquilo que une? Eis aqui o ponto de vista acerca do coração desta crise: qual o elo entre os brasileiros? O que nos une? Nesta direção, observamos o fato de que habitua-se a memória para absorver somente alguns adornos, pouco se ocupando com os valores mais intrínsecos. Porque mesmo uma tradição ou costume pode ter qualidades nefastas. Na civilização Maia, para dar um exemplo, era costume extrair o coração de pessoas vivas em sacrifício aos deuses, enquanto batucavam-se ritmos ritualescos. E creio eu não haver um ser vivo não-dependente de haloperidol que se entusiasme na presença de tão infausta tradição. O que então devemos resgatar culturalmente? Tudo aquilo que possa se conectar com o Eterno, livrando-se, sem nenhuma culpa, daquilo que é lutuoso, imprestável e que fatalmente nos diminui. Educar é elevar o espírito. E só é possível uma ascensão quando olhamos para o alto, quando buscamos acessar o que nos parece inatingível. É uma forma de superação que traz consigo a possibilidade de crescimento, seja como indivíduo; seja como nação.

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* Santos, Mário Ferreira dos. A Filosofia da Crise, São Paulo, Editora Logos, 1956

Autor: Rodrigo Chiuso


Fonte: http://www.diogochiuso.com


Nota: Veremos até quando a arrogância patética do Brasil vai insistir em ignorar o Mário. Os frutos disso já estamos colhendo.

terça-feira, 22 de março de 2011

Poeminha quase brega.

Os sonhos de outonos distantes,
As astes dos trigais maduros
Dobrados pela ventanias,
Os monjolos, os moinhos carregados de tempo
Tudo isso é jovem, mui recente,
Perto de tua companhia.
És portanto algo novo,
Com gosto de outros tempos,
De um intuir, de pressentir notas ocultas.
És para mim um saber sem prova,
Uma latência, um sabor.
Uma existência quase íntima,
Mas ainda por existir.
És tudo que eu sei, ou do que,
Outrora saberia.
És o que eu sei que há,
Mas se fosse ter que contar,
Nem em versos poderia.
És o incontável,
Mas que porém, o tato,
A visão, e o palato, apreciam.

Foto: A noite Americana
Autor: R de Rien

quarta-feira, 9 de março de 2011

Chove



Chove em silêncio lá fora
Chove e troveja aqui dentro
Escorrem lágrimas nas calhas
Como sangue em veias
Vazadas pela lâmina fria das navalhas

Chuva de vento, chuva-vendaval
Um fuzilar de trovões dentro de mim
Por quase nada, muito pouco
Uma ira por ausências que não se explicam
Iras reais, e amores de festim

Mundo silentes, invisível
Risível para que não vê
Visões de tormentas e alegrias
Irresistível para quem te capta
Para quem te prova
Intransponível, o não te ter.

O cosmo e o caos em uma tez
Um simples rosto?
Complexo ser...o caos é tua ausência
O cosmo gira o redor do teu ser.

Foto: Mário Ferreira

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Quase Lágrima

Ainda estarei na pétala da rosa
Qual orvalho que paira
A espera de um raio de sol
Que o vaze, fazendo-o prisma

Ainda sim, estarei em raízes
Pois são nos bastidores do solo
Que fazem o espetáculo das folhas
Dos verdes...

Ainda em silêncio, te vejo
Quando passa minuano, em silêncio
Furacão de orgulho, olhos em fogo
Marcha forte...e um coração que não me engana.

Ainda em silêncio - tua face
Moldada por Deus-,há de gritar
Há de gritar meu nome,
Pois não há silêncio para um poeta que chora
Tampouco para um peito silente
E orgulhoso que ainda ama.

Foto:Lucy da motta

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Tudo Flui?



Em algumas linhas a tarde se vai
Os amores vãos vão como os pássaros
Em breves linhas as esperaças
Escorrem pelas mãos,
Qual gotas de orvalho que se esvaem

Em um olhar o aqui se torna distante
O agora agora torna-se antes
A presença de antes é agora o lembrar
É a ausência que torna-se gritante

Em breves momentos sem ti
Sente-se eternos tormentos
Tormentas de uma escaler sem velas
Náufrago sem Norte, sem sabe aonde ir.

Em breves momentos a cicuta
Sorvida como licor dos mais brandos
Pois a morte atrai o solitário
Como o vício atrai as hordas de vândalos.

Foto: Alexander Kharlamov

domingo, 6 de fevereiro de 2011

QUANDO A ARTE LUTA CONTRA A DECADÊNCIA


Mário Ferreira dos Santos

A razão quis roubar-nos a ilusão, o sonho, a fantasia. A libertação do homem (esse sofredor animal de milénios de tiranias) será iniciada ao quebrar as algemas que a razão, mal orientada, construiu para acorrentar-lhe o espírito.
O homem de amanhã filosofará como Apolo e Dioniso. Então a arte ajudará a redimir os homens, dizem muitos, porque somente pela arte o homem se salvará, mas só quando pela arte puder ser ele salvo.
Para Nietzsche a arte é o "movimento contrário" à decadência que se processa no Oriente. E, para ele, o filósofo "artista" é o conselho mais elevado da arte. É pelo caráter tumultuário de nossa vida de criação, que toda e qualquer tentativa de desejarmos emprestar fórmulas únicas representa uma violentação. Ademais, querer impor uma única perspectiva é colocar-se do ângulo de uma verdade para todos, fora da qual não há salvação. Lutar por suas ideias é um direito e um dever, mas também o é respeitar as alheias. Há um direito de ser diferente, de "não ir por aí". Igualmente em arte seria o perecimento da arte, seria estrangular o poder criativo do artista. Que se orgulhem as rãs de não ter asas, mas respeitem os pássaros em seus voos.
O que devemos desprezar na arte moderna é o artificialismo que se apresenta como elementar, primitivo. É o que sôbre-excede ao natural, o requinte de uma desvitalização, da impossibilidade de criar.



Estamos, inegavelmente, num instante trágico da história humana. Assistimos ao esquecimento de tantas verdades que foram caras à humanidade. Vemos a instalação de uma escala de valores utilitários, que dominou e domina. Há esperanças de algo novo, mas ao mesmo tempo, indecisão quanto às diretrizes desse futuro. A humanidade deseja renovar-se porque cansou de sua descrença. É o fruto de sua longa deserção da vida, porque os senhores da vida não souberam deixá-la viver e gozar em paz o seu quinhão. As camadas mais fracas são sempre as primeiras a sofrer nas horas de sacrifício, de prejuízo e de falta, e as últimas a ganhar nas horas da vitória. Aos erros dos senhores da vida, sobrevêm o sacrifício dos pequenos ...
Devemos desprezar na arte moderna o seu artificialismo, repetimos. E este se apresenta muitas vezes com as cores da originalidade, da simplicidade, do primitivismo. Mero produto consciente de uma eleição desejada, em sua incompletação e em seu esboçar-se, e quer dar a impressão de obra nascida num instante de inspiração. O pintor vazio, que nada tem a dizer, traça três ou quatro pinceladas simbólicas, ou significativas, para repetir um tema já usado, gasto, explorado, para que reflita no espectador o sentir que está na moda.
Nada mais decepcionante do que essas exposições de arte, onde centenas de novos são apresentados sem refletirem qualquer personalidade, copiando mal, e que a crítica fácil depois elogia, classifica, compara, quando não lhes atribui características de genialidade.
Talvez um dia, quando a nossa era for examinada pela posterioridade, a falta de dignidade que se observa em todas as manifestações humanas seja o característico mais saliente que a distinguirá das outras.

É a decadência que vemos instalar-se em toda a parte. Escritores medíocres competem em glória com sumidades; poetas sem poesia gritam contra a morte da poesia; pensadores sem pensamento afirmam a inanidade do pensar; artistas sem imaginação chamam pela beleza exclusiva da cópia; pintores, que não sabem pintar, usam de uma liberdade de expressão que não expressa coisa nenhuma.
Nunca na história humana se justificou tanto a fábula da raposa sem cauda do que nesta que atravessamos. O homem de valor notório nega tudo quanto não tem. O mau orador nega o valor da oratória; o incapaz de escrever coi sas profundas nega o valor da profundidade; o borra-qua-dros nega o valor da pintura do passado. Improvisam-se genialidades com a rapidez das notícias e das modas.
Três anos bastam para não se compreender nem sentir o corte de uma roupa, o padrão de um par de sapatos. Aos vestidos compridos sobrevêm os vestidos curtíssimos, e vice-versa. Uma estação, para outra, distancia tanto o modo de vestir, como antigamente distanciavam os lustros, os séculos até. É à velocidade que eles emprestam o porquê de tais factos. Propriamente a incapacidade de duração das afeições e gostos nunca foi uma prova de superioridade, e sim de inferioridade. São precisamente os "ventoinhas" que se deixam arrastar pelo agradável do passageiro ou pelo passageiro do agradável.
Não há um sentido dominante de querer a beleza. O provisório ameaça tudo, e ao domínio dos sucessos, dos "big-light-names", sucede o esquecimento sepulcral. Quantos heróis da humanidade esquecidos nesses três decénios, que, dentro talvez de outros três lustros, ninguém mais saberá dizer o que eram.
Mas, de entre cem pequenos artistas supérfluos, um ou outro desponta. Há nomes que vencerão o tempo. Se olharmos vinte anos para trás, veremos na literatura quantas promessas que despontavam e vemos, hoje, quantas realidades dessas promessas que ficaram. E das esperanças de hoje deixemos que sobrevenham mais vinte anos, para que fiquemos sabendo quantas são meras aparências.
O vazio expressional de certa arte é o que determina de início a sua morte. Quem nada diz para a vida ou para os homens, mas apenas explora um sentimento passageiro, uma emoção ou simpatia momentânea, e não fixa, em cores firmes, o que deseja expressar, não conseguirá sobreviver! Muitos artistas proclamam que não desejam ir além de si, e que lhes basta a notoriedade, e que a glória não lhes é o estímulo, e preferem a vitória do momento que passa, cuja fruição lhes está às mãos, e não trocarão o prato de lentilhas do renome pela esperança de serem amados amanhã, e compreendidos por outros, à custa, muitas vezes, da incompreensão de seus contemporâneos. Não os acusemos. São apenas mercadores das emoções e dos gostos transeuntes, embora chamem de novas mensagens as suas obras. Mensageiros da novidade e do modismo. Não pertence aos mercadores o desejo da imortalidade, mas aos estetas.
Em meio desses exploradores da arte, desses valores convencionais, o leitor sente-se perdido. Não sabe escolher, nem guiar-se. O elogio fácil, a glória proclamada de uns por outros, infunde ao leitor a convicção de que encontra pela frente o definitivo. À sua decepção sucedem decepções. Nada lhes dizem de novo. Contam-lhe apenas o que já sabe, o que já está cansado de sentir. Emocionam-no passageiramente, porque lhe despertam os instintos mais facilmente despertáveis, que não lhe deixam, porém, ressonâncias, mas um desgosto que não sabe definir.
Como todas as tendências buscam justificar-se, essas também possuem sua casuística, sua lógica, seus argumentos, suas teorias. Todas atitudes em arte são justificáveis; basta que aceitemos um ou outro postulado. Mas o que marca o valor de uma obra é alguma coisa que está ligado ao tempo. Não é exclusividade de nossa época os literatos que envelhecem em poucos anos. Na velha Alexandria e em todas as culturas, houve milhares de outros, cujos nomes estão no pó dos arquivos. Também foram expressões que ofuscaram. Pertence à história da arte a regra geral de que os artistas que obtêm vitórias fáceis não são os que deixam seu nome como um exemplo. Todo artista, que, ainda jovem, se julga com direito à glória, pratica um ato de juventude, compreensível. Se todos soubessem o perigo que existe na vitória fácil, muitos desejariam a glória tardia de um Romain Rolland, de um Simões Lopes Neto.
Só a maturidade pode conhecer a verdadeira glória. Neste caso, argumentar-se com as exceções de um Castro Alves ou de Álvares de Azevedo não é suficiente, porque exceções.
Há, entre esses artistas modernos, muitos que são apenas mercadores da arte. Há pintores que apenas vendem quadros. Há escritores que apenas vendem livros. É isso uma fatalidade de nossa época, uma fatalidade impressionante, mas que devemos compreender.
Mas não neguemos que esse aspecto puramente mercantil da arte tem sido também um estímulo para grandes obras. A miséria também nos deu grandes inspirações, e é de temer que, para os artistas, a superabundância não lhes afaste da verdadeira musa.
Lembremos que, em Alexandria, havia dramaturgos que eram preferidos a Sófocles, como hoje há dramaturgos preferidos a Shakespeare. Isso não impede que Shakespeare e Sófocles atravessem os séculos, e dos outros fique apenas a memória de sua passagem.
Não somos contra os artistas menores. Quase sempre é menor o artista que se torna grande. Os artistas menores são necessários também para dar relevo aos grandes. A grandeza é apenas uma relação. E que seria dos raros se não fossem os supérfluos?
Deixemos agora falar Spengler: "Que é que hoje chamamos arte? Uma música mendaz, artificioso estrondo de massas instrumentais; uma pintura mendaz, cheia de efec-tismos idiotas e exóticos, mais próprias dos cartazes de anúncios; uma arquitetura mendaz, que cada dez anos saqueia o tesouro das formas pretéritas, para "fundar" um novo estilo, ao qual cada um faz o que lhe dá vontade de fazer; uma plástica mendaz, feia dos roubos perpetrados na Assíria, no Egito, no México. E, contudo, o gosto dos mundanos considera isso como a expressão do tempo actual Ademais o que permanece adito aos velhos ideais, é lúbrica ocupação provinciana". E prossegue: "Em lugar de se pôr ao serviço de seu simbolismo, os artistas utilizam o cadáver, a múmia da arte, o caudal das formas já usadas, para recompô-los, misturando-as, trocando-as por uma forma totalmente inorgânica. Toda a modernidade confunde variação com evolução".
Mas o que sucede hoje já sucedeu muitas vezes na história; nem sequer conserva o cunho da originalidade, a nova musa dos modernos.
Essas palavras de Spengler são o eco, no século vinte, daquelas que, no século dezenove, Nietzsche exclamou, quase quarenta anos antes:
"Do mesmo modo que os velhos recordam a mocidade e celebram festas comemorativas, assim também a humanidade se deixa levar a uma consideração da arte como uma "recordação emocionante" dos prazeres juvenis.

Talvez nunca tenha sido compreendida a arte com tanta profundidade e alma como agora, em que a magia da morte parece envolvê-la. Pensemos naquela cidade grega da Itália meridional, que celebrava suas festas gregas, um dia em cada ano, lamentando-se e chorando ao ver a barbárie estrangeira triunfar diariamente sobre os seus costumes originais; sem dúvida, nunca se saboreou este néctar com tal voluptuosidade como entre aqueles helenos moribundos. O artista passará muito breve por ser um legado do passado, e como um maravilhoso estrangeiro, cuja força e beleza faziam a felicidade dos tempos antigos, render-lhes-ão honras como não as concedemos facilmente aos nossos semelhantes. O melhor que há em nós provém talvez desse sentimento de épocas anteriores, que apenas podemos agora alcançar diretamente; já se pôs o sol, mas ainda ilumina e acalenta o céu de nossa vida, embora não o vejamos mais".
Nós, porém, continuaremos a crer nas madrugadas.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Se meu mundo não fosse você.


Se meu mundo não fosse você
Ah se o mundo não fosse azul,
Fosse negro como a cor dos teus olhos,
Se o céu fosse límpido como a cor de tua pele,
E tudo que nos repele, me jogasse a você.
Ah se o mundo de todas as Marias das Dores,
Tivesse nesses poemas de hoje tão cinza,
As cores de uma fênix, que nasce das cinzas,
Que teimam em renascer dentro de mim.
Mas sei que os lírios dos campos...
Não Maria, aqui não tem lírios nos campos!
Mas se os girassóis me apontassem a tua direção,
Eu cá, um Ícaro nascido de um repente qualquer,
Acharia asas, ou uma rota qualquer
Para te achar entre ramos de flores,
Entre cores que pintam paisagens tão lindas,
Entre poemas latentes, esperando calados
Em pontos e vírgulas, estocados como o sabor
Dos vinhos, em adegas secretas dentro de mim.

Foto: J. Pedro Martins
Fonte: http://br.olhares.com/

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Qualificações Acadêmicas


Não à toa, a Academia "se tornou o local onde a ignorância é levada às últimas conseqüências" (by Millôr). É que aqueles que deveriam zelar pela sua qualidade são os primeiros a cultivar corporativismos, facilidades burocráticas ou mesmo baixo proselitismo. "Aqueles que deveriam zelar", alguém pergunta, "quem são?". Os professores, ora essa! Eles mandam naquilo, ou assim deveria ser, e mandando, assumem necessariamente aquilo que vem com o poder: a responsabilidade. Eles dão o exemplo. Mas Pedro Sette-Câmara nos comenta um caso assaz interessante...

Por Pedro Sette-Câmara
Ando de metrô aqui no Rio quase todos os dias. E quase todos os dias penso que vou morrer, porque as pessoas se aglomeram nas portas, e, apesar de eu ser um sujeito pacífico, sou obrigado a empurrar alguém para entrar, o que faço, admito, sem grandes pudores. Afinal, não existe exatamente um dilema entre eu me atrasar e algum boçal ficar lambendo a porta do trem só porque acha isso gostoso.

Mas bem, nem é desse grave problema civilizacional que quero falar. Quero contar, compartilhar uma coisa que vi essa semana. Dirijo-me como um ser civilizado ao famoso centro do carro e vejo que, sentado, um homem tira da mochila uma apostila, dessas com espiral. É um trabalho acadêmico. É um trabalho de conclusão de curso, e o curso é um MBA do IBMEC. O autor do trabalho é uma mulher.

Em coisa de dois minutos (sim, eu contei) o sujeito folheia o trabalho, saca um papel, e o preenche com a nota — 7,5 — e uma justificativa. Eis que chegamos à estação do Catete. Mais um trabalho de conclusão de curso, assinado por Daniel Sobrenome Whatever (lembro bem, posso dizer qual era, upon request), sai da mochila do sujeito, e, assim que chegamos à estação seguinte, a da Glória, após menos de dois minutos, temos mais uma nota: 7. Não, um momento: enquanto ele preenchia a justificativa da nota, achou melhor alterá-la para “aprovado sujeito a modificações”.

Sei por experiência que corrigir trabalhos é chato, e não pouco. Sempre pensei que, dando aula regularmente, só daria provas e daria a meus alunos um número máximo de caracteres ou de palavras, a fim de que eles não fossem prejudicados pela minha falta de paciência com as embromações acadêmicas. Mas, hélas, também já gastei horas escrevendo trabalhos, e já gastei muito dinheiro com aulas. Não foi para que meus trabalhos fossem corrigidos entre a Glória e o Catete. O que vi pode ter sido um caso isolado. Só para garantir, recomendo que você torre a paciência do seu professor. Você pagou, ele recebeu. A melhor maneira de começar a melhorar a educação brasileira é fazer com que o professor saiba que cada movimento dele é impiedosamente analisado.

Retirado de PedroSette.com.

sábado, 30 de outubro de 2010

O MUNDO NÃO PODE PAIRAR


Os faisões voam nos prados,
As papoulas nos campos nos convidam
Aos delírios que a retina puder alcançar.
Mas ainda assim, como uma pausa na música,
Como um pedaço que falta...está sua ausência
Qual um fardo para seios que cansados suspiram
Qual uma marcha infinda, que não pode parar.
Orvalhos como gotas de silêncio, como a rede de Ingra
Ligando todas as dores, pois, as dores movem este mundo
E o mundo meu anjo, não pode parar...
Não pode pairar!
Foto: Pedro Cabral

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Um quase amor.

Esteja onde estiver
Evitando-me, com essa realidade que,
Pretensiosamente esmaga-me
Saiba que sob ela,
Minha poesia sobrevive
E aqui você é minha, seus lábios
Agora meus, pousam como conchas
Em minha pele.
Seus olhos fitam-me, e apalpam-me...
E cá, sob os escombros da realidade.
Nutrido por minha poesia,
Não a quero senão em corpo e espírito
Nívea como a nuvem, rubra como o sangue.
A realidade está aí, para machucar-me.
A poesia está por aqui,
Para fazer-me fiel a ti.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Existência



O vento sopra forte nas noites de inverno,
A chuva fere a epiderme da terra
Nas noites quentes de verão.
Levitam no outono as folhas-libélulas...
Primordial, as cores violentas nos prados.

Quem és aí vós, no meio dessa orquestração
De cores, sons, cheiros...
Quem és no reflexo do sol nas penas dos pássaros,
Quem és no instante que orvalho levita
Na pétala tão rubro-rósea-nívea?

És a vida e sentido, o logos, a essência
És a medula, o nervo que vibra,
A sinapse da idéia,
O fogo da pira,
És o supra-sumo da imanência.

És o que exala e contém,
Na existência e no vazio,
O que existe de amor,
Em meu seio e em minha consciência.

Foto: Nina Linhares

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Logos de Amar

Mesmo distante, com o peso das eras
Que fazem existir essa ausência de corpos
Não deixa de existir essa presença do ato de amar.
O pó do tempo sobre teu rosto,
Te dão um rubor que antes não tinha.
O eco de tuas palavra ainda dançam
Em notas sonoras, em compassos tão vivos
Que mostram-se em desenhos a riscar
Em minha mente, fantasmas de ti.
O tempo, onde marcham as guerras
Que mudam a face do mundo
Não mudam o logos do amor,
Uma chama que arde viva,
Mesmo que um dia não haja mais vida em tí.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Paixão e queda.

Eu quando ferido,
No campo de guerra das paixões
Sangro, vazando feito a brisa
Que movem as ondas.
Quedo, mas meu cair
Faz ruir junto comigo
Tudo que está perto.
Mesmo em silêncio,
O sol nos fins de tarde
Batalha e geme em explosões
Magníficas, para ser vencido.
Ainda ferido, caído ao chão
Quem por eu passar
Não poderá ignorar meu sangue
Sob suas botas,
Tingindo minha dor em suas pegadas.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

Medos

Medos de dentro da noite

Medos dos coices nas feras

Medo dos rubros dos olhos

Que brilham dentro da noite

Como foice, como duas esferas

Medo de peitos sombrios

Medo do estio de amores

Medo de tantas as dores

Do sangue, dos acúleos de flores

De rosas, de dentes, de garras de feras

Medo, lâmina em desejo

Medo e desejo de carnes

Gozo dentro da noite

Paixão em açoite

Corte de lâmina que arde

Medos de sonos fugazes

Medo de noites eternas

Medo das fronteiras do amor

Do traslado da dor

A levar-me as feras

Medo covarde, temor

Temo um amor de uma fera

Fera acata essa flor

Acata este poema

Com versos sem pontas

Redondos com uma esfera.

Ver

Ainda abro-me aos sonhos
Para que o minuano, a leve brisa
Leve meu coração, como nacos de neves
Sobre as montanhas,
Sobre os pinheiros nos montes
E pouse dócil sobre alguma leve folha
Que o calor dos raios do sol
Lágrima, pois o que é lágrima
Não é só de dor.
Ainda abro-me ao sonho, a guarda
Aberta as flechas
De algum travesso cupido bêbado,
Ou ébrio de ópio que seja,
Que teima em dar-me esperanças
De atingir-me com risos brancos
Com olhos tão lindos,
Rutilantes, tão raros,
Com beijos tão doces
De palatos tão caros...
Anjos vadios, de flechas tão certas
Incerta é a vida,
Que este poeta ainda leva,
Mas certo é o desejo,
Que após tanto pranto preserva.

domingo, 11 de julho de 2010

Horda de Anjos Sedentos

Os anjos bebem encostados sobre o balcão dos bares.
Babam sobre os balcões e repetem as doses dos runs
Uísques, cachaças baratas...
Os anjos sem pais em pensamentos delirantes
Deliram e giram nas noites de tangos.
Levitam sobre as calçadas em sono
Que murmuram segredos em seus ouvidos oníricos.
Os anjos delirantes não suportam essa vida,
Essa morte vestida de terno e gravata,
Pasta vazia na pata direta como espinhos que furam cadelas...
Em plena solidão que apunhala, que lhes rasgam as artérias
As pálpebras de sono, deixando os olhos atentos
E o coração a pino, com a lua (câncer) crescente à meia noite.

Poema...

Os poemas saem frescos da alma
Como os primeiros raios de sol
Tocam de leve, tato-veludo sobre a pele
Os poemas, são feras outrora
Em esferas que explodem dentro d'alma
São brados fortíssomos que podem cortar
Há poemas que não se precisa falar
Eles nascem na beira das estradas
Sob a forma de pétalas,
Nascem e renascem pela forma de sonhar
E pela estrada que dorforma
Dá nova forma ao nosso caminhar

Todo poema é bem verdade
É uma forma de cantar
E esta forma transforma
O nosso chorar
Como os brados que calam
Ao que acalanta
Ao que acalanta
Ao que acalanta...

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Depois dos Falsos Bilhantes


Quando os falsos sorrisos cessarem

E as harpas calarem, e as frutas secarem

Suando a voz do Tejo calar

Serei eu quem dirá: - Te amo

Por quê? Por que, eu não sei

Mas sei que preciso te amar

Assim sonatas cantam sob o silêncio

Como entes que existem em nós

Mas não precisam falar...

A voz fere o silêncio

E é este o único palco que podemos sonhar

Quando nua, sem a chaga da vaidade

Despida dos pecados sutis e fugazes

Quando assim, seremos capazes

De pecar sem temor do real

Ou o ardor do sonhar.