segunda-feira, 29 de junho de 2009

UNIVERSAL

O universo se estende sobre meus olhos
Como as chitas balançam ao sabor dos ventos no varal
E assim como colho a maçã e firo-a para ter seu sabor
Eu caminho passos errantes sobre a terrra,
Para que possa setinr-me universal.

Foto: Isadora Persone
Fonte:http://br.olhares.com/varal_foto1602050.html

terça-feira, 2 de junho de 2009

QUASE DELÍRIO

Eu que prometi jamais verter novamente meu olhar sobre ti
Voltei ao túmulo das ilusões perdidas
Voltei a agoar os lírios que outrora foram arrancados pela raiz
Voltei ao cocho antigo em que voavam prazeres onde bebia-os como uma fera sedenta
Cá estou, fronte de ti, musa dos pecados e dos desejos que ainda latejam
Latejam embora o pulso fraco, embora minuano e não vendaval
Embora polegadas, e não passos largos em direção ao horizonte


Eu que prometo com a mesma facilidade que desfaço promessas
Prometo que nunca mais retorno aqui, Íris de meus sofrimentos
Brida que me guia por falsas esperanças, com olhares de isca
Com trejeitos de ser minha, embora esteja apenas ao alcance de meus olhos
Delírio eterno jamais interrompido...
-Oi! Boa tarde.
Assustado acordo e respondo com um sorriso discreto:
-Boa.
-Mais café senhor?
-Não, não. Estou de saída... De saída...
... De saída para nunca mais voltar, até o próximo fim de tarde.

Foto: Pedro Monteiro

segunda-feira, 4 de maio de 2009

VALSA

Num canto escuro sob a luz da lua magra,
Sob a ponta das estrelas que me prendem feito alçapão
Muita lágrima respinga
Palavras lindas para lavar meu coração

Assim danço essa valsa incerta
Assim te faço tão perplexa
Assim deserto ermo dessa causa
Causa incerta, certa feito uma procissão

Caminhada com hordas em busca de teu coração
Dança essa valsa lindaDança essa valsa e limpa
Com jorros de lágrimas o teu, que também é o meu coração.
Imagem: A valsa.
Escultura de Camille Claudel

segunda-feira, 20 de abril de 2009

CANSADO

Eu que tenho muito a dizer
Que por mil porquês sempre fico calado
Cansei dessas primaveras cratenses de flores murchas
Cansei de crepúsculos nos prados
Dos contos, de histórias e de bruxas

Cansei da roda-viva no ataúde
E que nesta cidade, em amiúde debulham meus pecados
Eu, que já não me desvio dos dardos
Não suporto os tiros de carabina

Eu que sorrio de boca aberta na neblina
Que danço balés nestas ruas
Que nuas abrem as penas para mim.
Eu, que outrora atingido por mil carabinas
E pela chuva de canivetes dos pivetes
Hoje, como poeta, decreto que tudo que é fogo vire neve
E que tudo que me atinja seja de festim

Foto: Gabriel Gonçalves

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Não vale mais

Não há mais porque cantar,
Nem porque colher rosas nos jardins
Nem reagir a piscadela do olhar
Não há voz, nem flores a colher nem moça para piscar

Agora não há mais porque chorar,
Nem porque lê os sábios, ou as sabiás.
Ninguém com olhos para ouvir,
Tampouco porque bradar.

Nunca houveram sábios tão tolos
E tão roucas as sabiás.
Não há mais nesses tempos "modernos"
Um só motivo para se poder amar
As vidas se resumem a tolos estudos em mil cadernos
E um batalhão de insensíveis querendo se empregar.

Não há mais a violência do beijo
A meiguice de um tapa pelo descontrole dos ciúmes
Há sim o cume da indiferença
Que é a mais nova crença: creio no que tenho, no que compro.
Creio mais no brilho da faca do que no sabor do queijo!

Foto: Ana Rita Vaz Cruz
Fonte: http://br.olhares.com/

quarta-feira, 8 de abril de 2009

Fragmens

Segunda-feira, dia 13 de abril pelas 20h, inaugura a exposição ‘Fragmens’, por Rogê Venâncio

Fragmens
Análise por Renato Dantas (Ator e Diretor Teatral)

A modernidade construiu o homem vendo-o nas relações sociais baseadas na dualidade capitalismo x socialismo, promovendo uma dialética ética e estética, onde a proposta de um homem novo não chega a termo, visto que a queda do muro de Berlim sinaliza uma terceira via. A arte, testemunha e propositora de mudanças, desconstrói o homem e o mostra numa perspectiva pós-moderna.
Através do visual, ‘Fragmens’ aponta caminhos que podem ser percorridos pelo gênero humano, onde a arte seria o norte do reinicio de pesares e fazeres da mulher e do homem pós-moderno..
Aí é que Rogê Venâncio propõe novos rumos para este homem, desconstruindo seres e coisas para apresentá-los como proposituras através da colagem.Com as séries: ‘Juazeiro a cena da fé’, ‘Desconstrução’ e ‘Fragmentos’, em um total de treze obras, o artista clarifica a sua intenção no ver o passado, andar junto ao presente e vislumbrar um futuro.
Juntando elementos analíticos (concretos e abstratos) propõe em sua reconstrução uma síntese onde as coisas e os seres se ressignificam, mostrando protótipos de um novo homem, uma nova sociedade.
A desconstrução de Rogê constrói outros rumos.
Fonte: www.olharcasadasartes.blogspot.com

quinta-feira, 2 de abril de 2009

PRAZERES MÓRBIDOS

No trovejar da noite
Nos delírios do gozo
Eu sobrevivo junto da ossada dos transeuntes
No bojo dos pecados, no bico do seio
Na paz das pombas,nas línguas das gírias das putas,
Na luz de suas grutas, fontes de tesouros
Onde de gozo em gozo reluz o ouro
Sobre a face faminta da solidão.
Foto: Paulo Almeida (Pasma)

RÉQUIEM PARA UM CRATO MORTO-VIVO


Quando debruçares o olhar sobre o dorso das montanhas
Quando tuas entranhas revirarem-se de ódio
E tuas façanhas e tuas magias te projetarem ao feio pódio
Estarei olhando bem de longe teus pecados
Tua fisgada no anzol da cobiça
Teus demônios lançando aos céus o furor do champagne e da cortiça
Para em breve te cobrar em fardos.
Estarei muito longe, a ver a luz bruxelante apagar-se,
A ver anoitecer em teu coração e as trevas densas
De tão intensas, porem as mãos do glaucoma em tua visão.


Foto: César Prata
Fonte:
http://br.olhares.com/

quarta-feira, 1 de abril de 2009

FAZER O QUÊ?

Fazer o que, se não há o que dizer
Vai sair, nova estrada, novos rumos
E sem rumo eu vou andar por aqui
Sem mais ter o que fazer, só olhar você sumir num horizonte sem fim.

Mas há de olhar, neste teu ser,
Que ainda estou dentro de ti
Como sol a ter esquentar e te fazer brilhar
Um bilhar inquieto dentro de ti

E ventará, um só soprar, estas cinzas para longe
De você, de mim. Pois em vou estou eu,
E você está eternamente dentro de mim.

Não adianta ir, pois como um sol,
Estou eu dentro de ti, dentro de ti.

Imagem: William de Bouguereau.

JÓIAS SEM FIM

Em todos os meus sonhos
Nos mais caros enfim
Eu enfeitava o teu corpo
Com mil bijuterias sem fim

Um colar de quase pérolas
Um dourado meio fosco
Uma prata nada cara, pois...
Pois tesouros sem fim estão dentro de ti

Dentro de ti meu amor há sim um universo sem fim
Dentro de ti de verso em verso
Saem pérolas, que todo o resto
Nada mais é do que festim

Em todos os meus sonhos tu reluz
Rutila em teu ser sóis exalando jasmim
Nada mais que sóis exalando jasmim
Isso sim, são jóias sem fim, isso sim, isso sim...
Foto: Kristinna

quinta-feira, 26 de março de 2009

PRISMA


Do nada, assalta-me um latente estado de poesia
E numa só lágrima há tantos versos que ninguém
Ao vê-la sem sorvê-la, jamais imaginaria que
O prisma da luz na lágrima é tudo em cor, que eu jamais diria

Foto: X.Maya

terça-feira, 24 de março de 2009

Liberação de verbas para a cultura

Gestores municipais de cultura do Ceará estiveram reunidos em Fortaleza e ouviram do secretário estadual da Cultura, Auto Filho, a liberação de R$ 16 milhões para o Fundo Estadual de Cultura, em 2009. Dois milhões a mais que no ano passado. Metade desse valor deve ser destinado ao interior cearense. O montante será investido nos editais de apoio aos projetos oriundos da sociedade civil e em diversas áreas culturais como teatro, dança, cinema, música e artes plásticas. Durante a reunião, foi elaborado um calendário regional turístico cultural para todo o Estado que envolverá eventos promovidos pelos Municípios, Estado e União. O calendário vai ser implantado parcialmente no segundo semestre deste ano e integralmente a partir de 2010. Tem por finalidade evitar choques e superposições de acontecimentos culturais, justificou o secretário Auto Filho.Para ter acesso aos recursos, as prefeituras são obrigadas a criar a Fundação Municipal de Cultura, o Conselho ou mesmo a Secretaria de Cultura. Em todo o Ceará, dos 184 municípios apenas 90 possuem esses órgãos culturais. As cidades de Crato, Juazeiro e Barbalha, no Cariri, já têm o sistema implantado. Para a secretária de Cultura do município cratense, Danielle Esmeraldo, a parceria com o Estado ajudará a fortalecer a cultura regional, notadamente. Mas segundo ela, o valor precisa ser bem distribuído em todas as regiões cearenses e não beneficiar somente a Região Metropolitana de Fortaleza.De acordo com a secretária de Cultura de Juazeiro do Norte, Glória Maria, todo valor direcionado à cultura é importante. Entretanto, ela afirma que o valor ainda não é suficiente para cidades como Juazeiro do Norte, que é considerada uma referência quando se trata de manifestações culturais.Já o secretário de Cultura de Barbalha, Dorivan Amaro, considera a iniciativa é importante porque favorece o crescimento das manifestações culturais em todo o estado. “As ações ficavam muito centralizada na região metropolitana e este incentivo vai possibilitar que a cultura do estado cresça de forma igual, tendo em vista que a região do Cariri é muito rica culturalmente”, afirmou o secretário.


Jornal do Cariri
Postado por Tarso Araújo


Fonte: http://www.caririag.blogspot.com/

quinta-feira, 12 de março de 2009

CUTIS

Devorei-a como uma flor,
Pétala por pétala suas pretensões a santa foram caindo
Seu corpo eivado de pecados, seus lagartos e cobras
Foram fugindo das tocas

Eu, sedento pelo corpo, sugava a alma pela porta dos olhos,
Melíflua e exaltada pelo desejo, pelo gozo latente,
Pela pele em fogo e as entranhas em erupções eternas.
Eu, que achava que a devorava, fui jantar e sobremesa,
E só o percebi depois do cigarro em brasa e o aluvião de fumo em minha cara.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

FOI A NOITE

As ruas pela manhã ainda tem o cheiro do sangue
Escorrido pela madrugada.
A noite, antes bela e romântica, torna-se fulgaz,
Assim como as vidas que por ela caminham, somem,
Como a água que escorre pelo ralo e some no submundo.

O cheiro de morte, de sexo, de drogas...
As noites de hoje, é isto que inspira ou atemoriza os novos poetas.
As liras tocam em outras claves,
As danças em outros passos, as pinturas noutras cores,
Onde reflete o céu cor de chumbo e o gris da lua com seu olho medonho a nos observar.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

PERDÃO


Eu, receptador do pecado alheio,
Cúmplice do gozo efêmero,
Co-autor consciente de inúmeras copulações,
Réu confesso do beijo, da arte e dos vôos para o nada.

Incentivador dos "vaga-mundos" e das "vaga-dias"
Repouso a mente cansada deste mundo do ter
No ventre das meretrizes que nada me cobram.

Deito aqui sobre o chão neste réquiem que vela
Minhas utopias vivíssimas, as lágrimas em virtude
Dos que não pude salvar.
Aqui choro, ao vê-los mortos, zumbis de sua própria exisistêcia... de terno, e gravata voraz, violenta, atando o pescoço do infame.
De cadernos nos seios, passos de colibri, a mente um Saara, um Saara.
Perdoa-me Deus, estes não pude salva-los!

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Cinema perde Robert Mulligan

Saiu de cena aos 83 anos, numa manhã fria de dezembro p. passado, devido a problemas com a sua motricidade cardíaca, o cineasta nova-iorquino Robert Mulligan, um dos profissionais mais competentes e sensíveis no tocante à criação de uma atmosfera e à imageria cinemática. O Caderno de Cultura vale-se do ensejo para prestar homenagem póstuma a quem nos legou algumas realizações dignas de figurarem no acervo de colecionadores exigentes para visão e revisão de seus méritos. Nossos arquivos e as fontes citadas em ‘Para Saber Mais’ serviram de consultoria para a redação deste texto.No entanto, Mulligan foi pouco festejado por roteiristas pretensiosos e metidos a saber de tudo, bem como por críticos zoilos para quem os bons cineastas têm obrigação de fazer uma obra-prima por ano ou pelo menos um êxito bilhetérico por semestre. Alguns produtores também não apreciavam Mulligan, embora o respeitassem, devido à sua exigência do “final cut”, ou seja, só aprovava seu nome nos créditos e na publicidade se pudesse dar a última palavra na malfadada sala de cortes, responsável por tantos desacertos, iniqüidades e até absurdos, como foi o conhecido caso de “Soberba” (The Magnificent Ambersons), obra-prima de Orson Welles (1942), de quem lhe remontaram o final e lhe roubaram nada menos de 58 min (pêsames para Robert Wise e Mark Robson), conforme registramos em ensaio publicado neste Caderno de Cultura em 16 out 2005.O Jovem e a II GuerraFilho de um funcionário de carreira da polícia de Nova Iorque, a quem cabia a responsabilidade pelo nível relativamente baixo de renda da família, Mulligan ainda assim pôde cursar a High School e revelar-se desde cedo um bom ledor e um jovem atento e preocupado com questões de caráter social, daí sua afinidade com os problemas dos moradores da periferia suburbana. Foi quando aos 17 anos quis ser padre para atuar nas comunidades carentes. Seus estudos teológicos foram, no entanto, interrompidos pela II Guerra (1939-45), após sua convocação, em 1943, para servir em unidade naval como radioperador, equipamento com o qual tinha afinidades.Finda a guerra, Mulligan havia amadurecido o seu pensamento e perdido suas antigas certezas em relação à religião e às suas perspectivas de ordem profissional. Sentiu crescidas suas dúvidas em face do absurdo do mundo, da estupidez da guerra, do morticínio de inocentes nos campos de extermínio nazistas e dos horrores reproduzidos em documentários projetados por setores militares. Estes, segundo Mulligan declarou tempos depois ao diretor-produtor Alan J. Pakula, o fizeram pensar na importância do veículo cinematográfico pelo seu potencial para transmitir idéias capazes de denunciar e expor as mazelas da sociedade e de contribuir para minimizar o sofrimento das classes desprivilegiadas. Perturbou-o a questão da existência e da permanência do mal, tema aliás tratado por alguns filósofos e deixado por ele no subtexto de uma de suas obras-primas e um dos melhores experimentos de horror em muitos anos: “A Face Inocente do Terror “ (The Other, de 1972) (v. filmografia essencial).A Descoberta da TV: Anos 50Em tempos de paz relativa, Mulligan encontrou trabalho como “office boy” no New York Times e depois como revisor auxiliar e mais adiante como redator de uma das equipes de reportagem. Aperfeiçoava ele seus conhecimentos sobre comunicação via rádio, quando se interessou vivamente pela televisão, tornando-se integrante ilustre da primeira geração produtora de filmes para a TV. Daí ter sido assistente de produção e logo depois de direção, quando trabalhou com o amigo Pakula e muito aprendeu com ele.Como se recordará o cinéfilo, Pakula foi o diretor proficiente de filmes como “A Trama” (The Parallax View, 1974), com respingos no assassinato de Kennedy, enquanto defendia no subtexto a tese conspiratória e denunciava a farsa do Relatório Warren, e “Todos os Homens do Presidente” ( All the President’s Men 1976), sobre o escândalo de Watergate no governo Nixon.A propósito, pode-se lembrar também de “O Assassinato de um Presidente” (Executive Action, 1973), de David Miller, e “A Pergunta que Não Quer Calar” (JFK, 1991), de Oliver Stone, para ficarmos só nestes defensores da tese de dois ou mais assassinos no caso Kennedy. Mulligan também estudou TV e cinema na prática, enquanto assistente de colegas mestres da categoria de John Frankenheimer, Robert Altman, Sydney Pollack e George Roy Hill. Casou-se em 1952 com a atriz Jane Lee Sutherland e quando completou 30 anos, em 1955, Mulligan ganhou reconhecimento como um dos principais diretores de qualidade nos dramas veiculados pela TV. Em 1957, recebeu convite para dirigir seu primeiro longa para o cinema, pois o aprendizado com aquela primeira e luzida turma e o treinamento intensivo propiciado pela TV já lhe davam competência e segurança para vôos mais altos.Surgiu assim “Vencendo o Medo” (Fear Strikes Out, 1957), um relato íntimo e perturbador do distúrbio mental de Jimmy Piersall, jogador de “baseball”, a quem o pai ignorante e dominador queria vê-lo brilhar a todo custo como astro nacional de primeira grandeza. O veterano Karl Malden como genitor e Anthony Perkins no papel do filho foram bem conduzidos por Mulligan, mas apesar do desempenho sobresselente não foram contemplados com indicações para o Oscar daquele ano. A partir desse filme, no qual parece ter havido um duelo de interpretação entre “pai” e “filho”, Mulligan revelou personalidade sensível e inteligente, cuja obra induz a estima, conforme escreveu Jean Tulard, para quem “heróis” como Jimmy são na maioria das vezes pessoas solitárias, as quais dificilmente conseguem integrar-se na sociedade. Para o dicionarista francês, Mulligan nos propiciou retratos em tons claros de seus personagens, especialmente em “Houve Uma Vez um Verão” (Summer of ’42,1971), um dos marcos do cineasta nova-iorquino, sobre o qual faremos referência quando analisarmos os anos 70.
ACERVO DE LG MIRANDA LEÃOL.G. DE MIRANDA LEÃO* Colaborador

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

UNI VERSOS EM MINHA MÃO


Sim, eu vi cometas na palma de minha mão
As esferas...fera em fera farejando a mim
Não, sim, são passos vindos do porão
São passos para o abismo. Estou chegando ao fim?

Cometa crimes, mas não por minhas mãos
São tragédias que ainda estão por vir
Cigana, se enganas que inda sou malsão
Vão, mil chagas se alojando em mim

Saturno entre os dedos, Netuno em segredo
Urano paira no dedo mindinho
Vênus que é de morte, Júpiter com muita sorte
Ora pela Terra, que rola nas linhas da minha mão
Nas linhas da minha mão, é meu começo, meio e fim

quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

Olho de Mulher

Os joelhos sobre a areia
Palmas das mãos, hora juntas, hora na face a aparar as lágrimas
A fé trincada entre os dentes, no brilho perolado do negro olhar.
Olhar que mira o céu, catando migalhas de nuvens.
Que os dilaceram em sua branquidão

Os joelhos sobre a areia
Agora dourada pelo tingir de lágrimas
Um sofrimento eterno
Assim como a eterna luta em manter-se vivo

De pé, cabo da enxada sobre o ombro.
E homem que a pouco era escombro
Ergue-se e fere a terra agora pelos passos

Passo a passo com a solidão,
Ombro a ombro com Deus,
Dores aos montes, e ele some num horizonte,
Fonte de um homem de coragem e orgulho sem fim.

Saudades dos homens de verdade e medo aos de festim

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

SONO


No meio da noite, após a nevoa e a bruma,
Saio para ver as ruínas dentro de mim...
Passo a pisar, e ver as estátuas degoladas.
O brilho do mármore aos pedaços refletindo a luz da lua.


Passos sobre os pântanos, restos do que foram esperanças.
Passos, lances e relances aparecem, como reflexos do que pouco lembro da minha infância
Pântanos de sangue, dores escondidas.
Feridas, abertas, arroios quase eternos. Tempos sombrios e ermos


Um passado tão presente dentre os futuros em mim
Luz ao longe, e o vôo da fênix.
O ar tangido por suas asas tocam meu rosto

O gosto volta a boca, a vista devasta a imensidão.
Dão passos o tato, o cheiro circula-me...
Há vida enfim, após a escuridão...Dentro de mim, dentro de mim...

quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

CONFISSÕES NOTURNAS


A mercê da horda de pecados que me perseguem.
Peco, com o ar triunfal de uma vitória hercúlea,
Peco, com o olhar sedutor no tango,
Eu manjo que peco quando a carta paira na manga.


Ao sabor do olhar sob o véu,
Das mãos sedentas de corpos nus.
Sou o vodu, das nuvens vagabundas no céu,
Sou o réu confesso que detesto este céu azul.


Estou de asas abertas no meio da noite densa,
E ai de quem pensa que os lupanares me possuem.
Estou perdidamente sob controle, e não há quem me vença,
Não há quem vença esta corja de vícios que me constroem.

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Meninos Carvoeiros

Os meninos carvoeiros
Passam a caminho da cidade.
— Eh, carvoero!
E vão tocando os animais com um relho enorme.

Os burros são magrinhos e velhos.
Cada um leva seis sacos de carvão de lenha.
A aniagem é toda remendada.
Os carvões caem.

(Pela boca da noite vem uma velhinha que os recolhe, dobrando-se com um gemido.)

— Eh, carvoero!
Só mesmo estas crianças raquíticas
Vão bem com estes burrinhos descadeirados.
A madrugada ingênua parece feita para eles . . .
Pequenina, ingênua miséria!
Adoráveis carvoeirinhos que trabalhais como se brincásseis!

—Eh, carvoero!

Quando voltam, vêm mordendo num pão encarvoado,
Encarapitados nas alimárias,
Apostando corrida,
Dançando, bamboleando nas cangalhas como espantalhos
desamparados.


Manuel Bandeira
Petrópolis, 1921

quinta-feira, 1 de janeiro de 2009

QUEM?

E quem diz do espectro do homem moderno?
E quem fala das danças das fadas de facas em punho?
Quem canta aos brados seus mortos no inferno?
E inferno é estar num coração vagabundo?

Quem surge das cinzas e dos nacos de nuvens?
Quem surge da gota do sangue que infecta?
Quem trepa nos galhos, nos paus atrás dos muros?
Que espinhos a tua retina espeta?

Que leis que te regem, te apedrejam no escuro?
Que curas, que asas tu espera que te levem?
Quem pensas que sois covarde, em cima de um muro,
Que há tempos o entulho só espera que o carreguem?

VERDES FIGOS

O figos estão verdes meu caro
E não adianta fomento colhê-los
Desde a primeira dentada o dente não brilha
O ar não infesta de cheiro
O doce é muito raro
As figueiras pendem ao som dos vendavais
Prenúncio de chuvas, ânsia no peito
A terra carece dançar alegre
Com seu corpo em febre pelo fogo de mil carnavais
E chega assim cada gota tingindo a terra
E sorrí a folha que se faz lavada
Sorrí o caule, todo corpo, enfim a gleba
Sorrí todo mundo numa dança para frutificar
Para o nascer do fruto, para a razão de tua dentada

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

ÂNSIA

Na mão fechada uma rosa e no peito as dores do mundo,
No olho enfurecido, o ardor de um vulcão
A mente fixa da idéia, vento na vela,
Os passos firmes com perfeita direção

Um sonho, com a boca cheia de ar sopra as velas
E aquela idéia de mudar o mundo, fixa na mente
Parte do coração
Ação proposta de mudar, de pintar uma nova tela
De derramar um bálsamo sobre o mundo malsão

Sonho e ação dada a necessidade
De mudar, bombear o mundo com próprio coração
De soprar a bruma que oculta a verdade

De ver o que arde no âmago deste vulcão
De ler esse diário, uma lágrima de caridade
Sonho de soprar as velas com a força de um tufão.

segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

PESARES

Apesar de tudo, e dos sentidos que aguçamos
Como o limar de uma pedra sem fim
Permance o opaco sobre os olhos
E uma nuvem intensa sobre a paisagem

Os elefantes, pelo delírio vôam
E as borboletas diferente de antes
Rastejam a vaidade de suas asas sobre a gleba
Nada mudou, mas tudo enfim não há de permanecer o mesmo

Não ao mesmo sol a vazar sobre as arestas
Das frestas das fendas de minha porta
Corta então o tédio arenoso sobre mim
Pois a vista perdida na paisagem,

A catar as migalhas da realidade
Que me encaparam entre os dedos
E agora resta-me o medo,
Dos segredos deste fardo, que arde sobre mim

EIS TUDO DE MIM

Nas rodas desta engrenagem que mastiga meus sonhos
No solo deste palco, num ato interminável
Estou a rever a mesma cena burlesca e irascível
Onde me despertam os brados mais medonhos

Quem sou nesta imensa teia de reações bioquímico-sociais?
Sou a sombra misteriosa dentro da bruma
Sou o estalo das ondas sobre as rochas, sou a espupa
Sou os arlequins funestos dos carnavais

Sou o brilho ocre no dente do velho
Sou o escavelho fomento entre as carnes
Sou o todo, o meio, enfim, sou as partes
Que ardem no fogo de vida ou morte deste prélio

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

IN NATURA

Assim como os bites dilacerando o tempo
A correr na impulso frenético da fibra ótica...
Assim também explodem os vermelhos das rosas
Na interminável complexidade bioquímica nos campos

Sabedoria eterna que o homem que por mais que se diga mister, ainda muito ignora.
Nem as tintas de tua tela interminável
Assemelharão as sutilezas das penas, das luzes,
Das tardes, dos brilhos dos olhos...

Erguerá mil ve-las, mas tua invenção, teu escaler,
Tua nau está sujeita ao açoite dos ventos
Ventos imprevisíveis por sinal.

Falará mil linguas, mas não explicará a harmonia
Eterna que há no âmago da própria existência de cada ser vivente.
Desiste então deste colóquio cansativo,
Deita as pálpebras um instante humildemente e sente.

Ergue-se homem, com teu brado sobre a natureza,
Mas de tempo em tempos saberás que é apenas peça,
Parte ínfima das entranhas desta fortaleza.

domingo, 30 de novembro de 2008

POEMINHA

Novos dias virão apesar da chuva intensa que agora cai
Apesar do mangue que agora estamos,
Da cegueira quase eterna,
Apensar de tudo parecer tão fútil
E as lágrimas sejam tão correntes,
Correntes vão se desatar como o desabrochar das rosas
Sóis tocarão nossas face
E em face disto tudo ei de ganhar um escudo chamado poesia

sábado, 29 de novembro de 2008

VISÕES

Ao longo do jardim apenas o olhar
Sobre as flores e ao fundo a mata
O lance do olhar sobre o vôo da borboleta a dançar no ar
Chapada ameaçar o céu, guerra eterna no fim de tarde
Onde o céu ferido sagra rubro-róseo,
Pavor das fadas e gozo dos anjos caídos
No bojo dos fins de tarde, aqui onde chamamos terra
Deu hora de sangue, deu hora cinza, deu hora de sono
Descendo nova cortina, novos atores num palco negro
Onde brada um luzir de homens e mulheres
Que uma vez na terra se fizeram sangrar,
Para que suas sendas de luz nos pudessem chegar
Ao longo do céu, este outro jardim, apenas o olhar
O seio que teme o escuro que anseia o novo
Dança na roda de desejos.
Dúvida cruel:Viver na eternidade, eu floresta imensa dentro de mim
Ou a rosa singular, vivendo para o povo.
Ao longo do céu, guerra eterna no fim de tarde
Arde uma batalha de rosas, pouso do vôo de abelhas
E em mim as centelhas das cores em minha retina
E as sensações que em meu peito ardem


Foto: Beatrix Krüger

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

DESEJOS EM SILÊNCIO


Te quero...te quero com o mesmo tempo que o egito teve para crescer,
Que os carcófagos tiveram para dormir...
Te quero com a mesma força do sol,
Com a mesma calma das águas do lago, do canto cisne, do passo do leopardo.
Te quero com o mesmo tempo de mil luas a descer pelas montanhas,
Com o mesmo balanço das ondas, do sopro do vento, da insistência imóvel das rochas.
Te quero tranquilo, como o balão da tingir o céu turmalina,
Eterno como os segredos deste mundo, imortal como tua própria alma.

FOI A NOITE



As ruas pela manhã ainda têm o cheiro do sangue
Escorrido pela madrugada.
À noite, antes bela e romântica, torna-se fulgaz, assim como as vidas que por ela caminham, somem, como a água que escorre pelo ralo e some no submundo.
O cheiro de morte, de sexo, de drogas...
As noites de hoje, é isto que inspira ou atemoriza os novos poetas.
As liras tocam em outras claves,
As danças em outros passos,
As pinturas noutras cores,
Onde reflete o céu cor de chumbo
E o gris da lua com seu olho medonho a nos observar.

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

CONFISSÕES


Ainda cá, no mesmo local de sempre
Vivo com meu olhar de cão perdigueiro.
Não a caçar perdizes, mas na mesma ânsia do cão faminto,
Caço sobre o mundo, as nuances dos finais de tardes.
Ainda caço o negror da pupila reluzente a me olhar pelo canto do olho,
Assim como ainda insisto nas buscas das pele brancas e trigueiras ao longo das madrugadas.
Persigo após o pó das eras, a última gota do cuba libre,
Que me solta os instintos mais primitivos...
Com a lupa sobre o mundo meu anjo, rastejo a língua como uma cobra,
A perseguir os sabores, o olfato os cheiros e a retina cansada,
As matizes que pousam sobre o meu opaco olhar.
E cá estou sobre o mundo, sendo eu ainda o mesmo:
Esta forja de pecados e mesma labareda de desejos.
Foto: Renato Luiz Ferreira

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

ORAÇÃO


Eu, quando muito, rezo de vez em quando
Rezo pelos prados, pelos rios, pelos mudos
Rezo pelos cegos, bêbados, rezo pouco
Mas quando rezo eu sempre sangro

Sangro pelo olhar, pelos poros, quiçá pela alma
Mas nada do que falo é atendido
Palavras somem no ar, como um balão desprendido
E assim somem as esperanças, perco a calma

Perde-se a visão, o olfato, tudo em fim
Perde-se o fio que prende o corpo a alma
O fluido das veias, a força motriz da vida
E o espírito assiste de longe o corpo que a pouco tinha
Como as uvas fermentando o chão, desprendidas da vinha


quarta-feira, 19 de novembro de 2008

TEMPO PARA MAIS UM PECADO



Sempre tenho tempo para mais um pecado
Sempre tenho muito tempo para contar cada brisa
Sempre com os pulsos firmes para levantar as saias
E se mesmo assim as fadas não me quiserem
Não há como não me deixar voar


Mesmo que não haja mais o galope
Haverão meus passos sobre a estrada
Mesmo que os anjos nos abandonem
Resta-me a minha própria luz
E mesmo que haja a rejeição das fadas
Ainda há o lupanar do céu
E as estrelas como cada meretriz que me seduz

AINDA ASSIM



A espera do crepúsculo, do alto da torre
A sangria imensa dos faróis vermelhos
A turba gigantesca a buzinar
A bruma cinzenta sobre os carros
E daqui de cima eu a tragar o rum
E lançar no ar a fumaça do cigarro

O traseunte cego pelo delírio do ter que chegar
Cego e não vê as vidas que por ele passam
Cego ao por do sol, a água como prisma
Cego ao lento e leve vôo do pássaro


O Condutor cego pelos cristais da chuva
Cego pela ira em ter que esperar
E mesmo parado ninguém espera
E ainda assim esperam ver o mundo mudar...
E ainda assim esperam ver o mundo mudar...
Foto: Mariis

sábado, 15 de novembro de 2008

SONO



Dorme no ventre dos lírios
Nos ventos da noite que envergam os trigais
Dorme sob as vozes dos martírios
Ou com a benção dos orixás

Dorme com o mistério do Egito
Com o seio em conflito
Com a voz deste meu grito
Que tomam as formas dos vendavais

Dorme sob as carícias das brumas
Sob os sons destas ondas
Que teus pés vem beijar

Dorme com as sismas das matas
Sob o calor destas asas
Sob o vento na fragatas que a levam ao mar


Foto: Felipe Morgado

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

DELÍRICO CEARÁ


O que fazem, os dias passados em minhalma
Sem ter ardido o sol em minha pele,
Sem os vapores da terra em meu corpo,
Sem o dardejar de ventos vindos das serras
Rebatidos pelos seios dos chapadões que motivam meus sonhos,
Para além do horizonte que desenha-se sobre meus olhos?
O que fazer sem os dias, sem as tardes que possa levitar como as folhas de outono?
O que fazer sem o hálito do mar, sem as rendas que se dipersam na praia e que muitos as chamam de ondas?
São nesses passos lentos que percorro meu caminho quando o sol põe-se a sangrar no final da tarde, tingindo a dor do final do dia e talvez lá também sangre minhas angústias e a saudade que tenho de tí...
Continuo a galopar entre os rios ao passo que o luar espia-me com um só olho...
No balanço das árvores pulso em cada folha que nasce, e em cada raiz a correr os sais necessários para o bradar da mesma.
O bradar em silêncio que cada árvore faz no meio dos vendavais, envergando seus galhos ao sabor dos ventos como quem gesticula.
Assim prossigo em monólogo com as conchas e com tudo que possua uma olhar que vaze harmonia, assim como os teus que agora em repouso, em algum lugar deve sonhar...
Sonhar com as notas dispersas de alguma lira e o com voz metálica de algum poeta que possa descrever as paisagens verdes aos seus olhos cerrados pelo sono e pelo negror da madrugada.
Ao longo desses dias em que sonhas, percorro as trilhas que o poeta a descreve e com sorte talvez possa eu aparecer nas mesmas.
Quem sabe no violento vermelho, róseo, laranja do tarde, no sabor das liras ou vibrar dos versos que um dia fiz a tí.

sábado, 8 de novembro de 2008

VINHA SUTIL

Vinha de livros apertados nos seios
Vinha de passos tão curtos, com tão grande enleio
Vinha no compasso dos ventos, de brisas e minuanos
Vinha leve, líquida, aliás, vapor!
Era o próprio ar. Não era a pena, nem a escrita
Era o nascer na mente da própria poesia
Quem era? Era ela ora...ela era a própria poesia
Tinha os olhos de graúna, as vezes de abacate.
Tinha os passos ligeiros na dança
Tinha em seus cabelos tranças por toda parte
Tinha, tinha...tinha tanta coisa que esquecí de mim
Esquecí de mim...esquecí...

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Por mais que o mundo faça um esforço medonho para nos por mordaças, simplesmente algumas pessoas de talento não resistem e grunem mesmo com o pano enfiado na goela. Outros mais livres ainda não são postos com grilhões, mordaças, algemas ou qualquer coisa que o condicione. São os raros espíritos livres que no meio de tantos versos que lemos hoje em dia realmente podemos dizê-los poetas. Abaixo um dos poemas do amigo Lupeu que está entre os poucos poetas verdadeiros que conheço.


O celular me liga no mundo e sei, continuo desligado. detesto isso de ser achado a qualquer hora. Gostava quando os telefones viviam presos. Iguais a cachorros ferozes. Presos em suas cordinhas enroladinhas. A gente via eles lá, nos cantos das paredes, cobertos com pequenas toalhas de crochê, ou as vezes, presos também com pequenos cadeados. Um dia eles se soltaram. Pularam das paredes para os cintos. Depois para as bolsas, os bolsos. Um dia, vão andar sozinhos. Falar entre si. Planejar a destruição de todos os humanos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

APESAR DE TUDO


Mesmo com o fel que homem moderno
Deixa escorrer pelos cantos da boca
Ainda ecoam o trinar dos canários, n'algum lugar
Lugar, no planeta chamado poesia

Mesmo ao som das metralhas
Batalham nos céus o estalar de rimas
Sangram as papoulas nos prados
E mesmo ao corte do machado
Nascem nos grãos bombardeado pelos pássaros
A esperança em cada semente expelida
Esperança em forma de poesia.

Ainda assim, mesmo com o peso dos grilhões
Atados em meus pés...não seguram-me a noite
Ao sabor dos ventos os sonhos voam...
Desata o espírito e fica o corpo que jaz na laje fria

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

ROSA DOS VENTOS, TEMPOS E ESPAÇOS


Se soubesse quem és, perguntaria
O que de mim seria, e qual sereia tu seria?
Saara meia noite dentro de mim
O que sou eu neste pesadelo perdido com fome
Olhando para tí nos hotéis de Dubai

Arábia, quem te diria, em teus manuscritos
Que nada me diz, hoje me diria
Que dança no céu os faraós com os califas
Com a rosa dos ventos nos cabelos ao sons da mansa brisa
Para o sorrir desta sereia que esta noite possuiria

Que horas são?...eu saberia de Dalí não derretesse
O tempo, mas assim me perderia
E não seria quem sou hoje, sem tempo nem espaço
Onipresente na tentativa diária de poesia

Me guia então mulher, rosa dos ventos, tempos e espaços...vazios

VOAR POETA



Sonhava o insano voar pelo universo
Sonhava com passos bem telúricos
O poeta louco, casto, sensual, boêmio
Sonhava que a pena na mão era o único refúgio

Anda o poeta por veredas infindas
Perdia-se em umbrais, em prados, porfia uma vil sentença
Pagando pelos sonhos que sonha ainda...
Vai o poeta, some, que cá está tua presença,
Que tua pena brada pela voz de um tenor que jamais se finda

Sonhava o poeta ver grilhões partidos
Mas o preço do voar é caro conforme o risco
Lá no céu voar de encontro a um corisco
É diferente de um pássaro que canta ferido

Voar contra as próprias entranhas é poesia
É filosofia romper e poetizar
Proeza, vós acompanha o vate nesta noite fria
Acompanha os passos deste caminhar

sábado, 25 de outubro de 2008

XADREZ



Olhos lançados nos meus, partida aberta neste xadrez
Olhos, recíprocos olhares nesta teia de desejos
Bispos à frente, à frente cavalos
Desejo e cálculo, um de cada vez

Tez de menina, ar de egípcia, arte e mistério
Guerra no palco, centro em jogo
Império em crise.
Não há quem já visse este teu cor(e)ação
Robro em desejo, ensejo de vidas e mortes
No bojo de cada relação.

À frente as bases, enlaçam-se as torres
E delas enfim...do alto apanho teu coração.

ABIDORAL JAMACARU E O "BÁRBARA" - O MENESTREL DO CARIRI APRESENTA SEU NOVO TRABALHO MUSICAL.


A notícia não poderia ser melhor, chegou o tão aguardado CD daquele que é um dos maiores símbolos da musicalidade Cariri/Brasil.
“BARBARA”, assim se intitula o mais novo trabalho de Abidoral Jamacaru, que presta justa homenagem a heroína Dona Barbara de Alencar. Neste terceiro trabalho Abidoral mantém-se coerente aos seus princípios musicais. Contextualização literária atualizada, arranjos trabalhados sob a sua supervisão, sempre com propósitos inovadores! Novos parceiros, novas roupagens nas músicas de outros autores.



“ Abidoral é o mesmo, renovado, como o sonho que ousou iniciar ainda imberbe e não deixou de sonhar homem feito com a prata da barba e do cabelo, seu sonho de Mateus e nos acordar com seu canto brincante”. Trechos da apresentação que abre o encarte sob as palavras do consagrado cantor/compositor: Chico César.

Ficha técnica:
- Gravado em padrão digital no estúdio: IBBERT-SOM
- Produção artística e executiva: Abidoral Jamacaru
- Direção musical: Lifanco
- Assistente de produção: José Flávio Vieira
- Projeto gráfico: Reginaldo Farias
- Foto contracapa: Pachelly Jamacaru
Mixagem e masterização: Abidoral, Lifanco e Iberteson Nobre

Como adquirir:
Breve nas lojas da cidade ou em contato com o autor:
Fone: 8811. 0195
Endereço de Abidoral: Rua José carvalho 247,
Centro Crato-Ce
63100.000

Foto: Pachelly J.
Postado por Pachelly Jamacaru
Fonte:www.cariricult.blogspot.com

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Dante inspira obra de artista


Personagens do livro ”A Divina Comédia” são retratados e expostos durante a exposição “O Inferno de Dante”, disponível para visitas até 31 de outubro, no Crato (Foto: Elizângela Santos)

A exposição já acontece desde o último dia 7. É possível perceber que o público está ficando admirado com as obras do artista Francisco dos Santos
´A Divina Comédia´, de Dante Alighieri, tem personagens em argila, exposto na Região do Cariri até o dia 31

Juazeiro do Norte. Formas em padrões clássicos, inspiradas na obra de Dante Alighieri, “A Divina Comédia”. O constante interesse de buscar as formas exatas da anatomia humana, por meio da escultura em argila, trouxe um trabalho elaborado pelo escultor caririense, de Juazeiro do Norte, Francisco do Santos. Os detalhes de cada personagem arrancam suspiros dos que vão à exposição “O Inferno de Dante”, aberta para visitação na Galeria do Sesc Crato, até o próximo dia 31 de outubro.



O artista decidiu beber na fonte. A trilogia do autor clássico envolve o Inferno, o Purgatório e o Paraíso, na Divina Comédia. E foi na maneira como são descritos os personagens que o estudo do escultor foi mais a fundo. A forma minuciosa e expressiva dos seus personagens, principalmente no Inferno, trouxe o aperfeiçoamento também de Francisco dos Santos, um autodidata que hoje vem buscando cada vez mais se especializar no que faz. Ele é estudante do curso de Artes Visuais da Universidade Regional do Cariri (Urca).

Material perfeito

Desde 1996, quando realizou o seu primeiro curso na Associação dos Amigos da Arte (Amar), com a escultura em argila, que procurou, antes de tudo, ter o material perfeito para elaborar as formas. A pesquisa veio pela argila que não desse trabalho na hora da secagem, ou mesmo quando levada para o forno. Foi um tempo para ter o resultado ideal. Entre a argila que ele chama de magra, com menos elasticidade, e a gorda, descobriu o meio termo e uniu as duas. Chegou na forma ideal, a liga perfeita, para desenvolver o talento. A dedicação ao artista e sua especialidade veio depois de ter a matéria-prima.

O foco de atuação vem junto com o estudo da anatomia. Os músculos, proporções do corpo humano, que seguem a medida das sete cabeças, dentro dos padrões das esculturas clássicas, estão contidos em seu trabalho. Além de escultor, Francisco dos Santos também desenha. Para ele, esse trabalho auxilia bastante no processo de confecção das personagens. Outra inspiração, dentro dessa forma de criar as imagens, foi por intermédio das gravuras de Gustave Doré.

Especialização

Mas foi num material acessível na região, que o escultor decidiu se especializar, por ter esse material com maior facilidade. “Posso também trabalhar maior riqueza de detalhes”, diz. As vantagens de transformar esse trabalho em cerâmica têm um sentido bem mais proveitoso. Para o escultor Francisco, a própria arqueologia confere isso, por meio dos milhares de anos de materiais que são estudados por intermédio das ferramentas provenientes de utensílios de peças desse tipo.

O trabalho simples e com fortes detalhes traz um pouco da história do renascimento para uma região onde os artistas, em sua maioria, buscam o regional para se inspirar. Isso, de forma nenhuma, incomoda o artista. “A idéia é também provar que nordestino pode trabalhar os padrões clássicos e podemos ficar apenas presos aos padrões regionais”, explica.

Francisco trabalha em seu ateliê Shanadú, na cidade de Juazeiro do Norte, onde ministra aulas de desenho, pintura, escultura, além de realizar, também, oficinas para diversas instituições do Estado, como o Serviço Social do Comércio (Sesc), Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), Centro Cultural do Banco do Brasil (CCBNB) e também Sociedade de Apoio às Famílias Carentes (Soafamc).

Essa exposição, com apenas 12 peças, vem como um resultado tridimensional da realidade exposta, de forma nua e crua, pelo autor Dante Alighieri. O prazo, conforme o artista, foi de 45 dias para desenvolver cada personagem retratado no livro, com as formas sem fugir ao imaginário do leitor. O tempo maior é dedicado ao estudo e depois mãos à obra.

Cada trabalho tem uma história para contar. A expressão validada na percepção do artista. Um deles está em destaque na exposição. É denominado ´Depressão´. Caracteriza todas as pessoas que estão no limbo. Na ante-sala do inferno. E é nesse lugar onde estão todos aqueles que fizeram de tudo para não ficar no inferno. São o meio termo e também não chegaram ao céu. Eles vieram antes do cristianismo. Outro personagem conhecido, Caronte, o barqueiro que atravessava as almas do rio do inferno, também se encontra na exposição. Também tem Maomé, com suas vísceras expostas. O interessante é que a admiração da obra pelos visitantes da exposição, no Sesc, em Crato, desde o último dia 7, faz com que as pessoas se identifiquem com os personagens. Isso demonstra o reconhecimento do público pela busca da forma humana.

Mais informações:
Exposição ´O Inferno de Dante´
07 a 31 de outubro (8h às 20h)
Galeria do Sesc Crato
Atelier Escola Shanadu
(88) 3512.8103 / 8804.7596

Fonte: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=580175

domingo, 19 de outubro de 2008

HOMEM MODERNO


Como ousas tu com tuas garras sem brio
Homem moderno afrontar-me com as chagas que tem no seio
Com tu'alma feroz, mortal, de olhar sombrio
Fazer ferir um olhar que só escapa enleio

Como ousas tu declarar fortuna
Nessas gargalhadas de dentes ocres e dourados
Há ouro em tua boca mas ela não vale coisa alguma
Assim como não valem as notas do teu brado

Eriçado de raciocínios bestuntos
Ousas falar-me de infinitos luxos que o dinheiro compra
Ouro, jóias, carros, embrosias, tudo...
Tudo que não preciso para deixar minhalma tonta

Ouro que torna-se ridículo perante minhas estrelas
Prata que não reluz a tez nem um olhar singelo
Tais ambrosias não mais valem que minhas centelhas
Assim como as mesmas me têm o essência do bem e do belo

Homem moderno não ergue pois tuas venturas
Sou poeta:crio e ergo sóis, mares, brumas
Perante o báratro sou a porta


Imagem: Óleo sobre tela de Eve. Tútulo: Angústia
Fonte:http://eveartes.blogspot.com/2008_02_01_archive.html

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

TACITURNO


Nada há mais que nestes dias que possa eu pensar
Nada na brisa que leva, este silêncio a nenhum lugar
Nada no movimento intenso dos carros, nos gestos nobres e bravos
Nada além do velho hábito de me cansar

Cansa o prelúdio, cessou o adágio
nem vestígios das gotas sonoras de um pianíssimo...
Nada nos versos vorazes dos jovens,
Que movem este tempo rapidíssimo.

Estacionam as águas, congelam-se as poeiras no ar
Emudecem as notas que antes estavam a bradar
Agrilhoam-se os passos da dança...
A agora cantam e dançam as mazelas em forte brado sem cessar

Fotografia: Luís Gonzaga Batista
Endereço: http://olhares.aeiou.pt/sem_titulo/foto2085412.html

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

CISMAS


Nas cismas do homem, como quem mexe com gravetos nas cinzas de uma recente fogueira.
Malina alí o poeta. Nas gavetas do ser, nos porões da alma está sua instância...
O doce das rimas, os brilhos dos vocábulos são meros floreios quando frente aos pântanos do espírito.
Defronta então nesta caminhada seus medos, seus segredos e dores, como os canos enterrados servindo como veias da cidade.

Sopra a poeira dos séculos mudos, como os vendavais sopraram os ponteiros dos loucos relógios que corriam feito as pás dos moinhos nas paisagens da Holanda.

Faz de teu verso, algo além de um cântico, mas sim uma oração onde expurga os pecados.
E eleva-nos aos degraus utópicos da perfeição

Desfaz-se desta máscara de cera. Pois a poesia é isso: dor em segredo, luz sobre as frestas, inferno e talvez paraíso.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

CANSADO


Cansado. Vinte e poucos anos e cansado
De duas guerras que não viví, mas que tenho os membros alheios mutilados em minhas refeições...

Cansado dos anos de câncer que sobrevivi bravamente chorando a dor alheia

Cansado da luz de mercúrio sangrando pelos postes do subúrbio

Vidrado do salto do super-herói na TV, do suicida tentando salvar-se, do homem no prédio em chamas...

Vidrado na beleza asnática e vulgar da menina branca que passa
Cansado daquele olhar que me tortura e me devassa

Cansado das navalhas nas carnes, pulsos desistentes...
Cansado dos vultos de esperança que latejam em minha mente.

Cansado dos meus séculos perdidos no Egito,
E por meu grito não ser ouvido nunca mais
Cansado das torturas nas almas dos aflitos
E eu aflito, indiferente, são e doente...tanto faz.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

De...lírios


Vejo-a pelo prado, dama dos ventos e dos vendavais
Vens a colorir as tulipas de vermelho, a dourar os trigos
Vens com o bálsamos dos meus ais
E dar-me em teu peito amoroso abrigo

Vens nos nacos de nuvens, nas manchas violáceas do entardecer
Vens na bruma da serra, nos mistérios da noite
Nos delírios do açoite
Que apunhala teu corpo ao meu em gozo e prazer

Ergue teu ser, teu brado, tua lira
E assim no meio das trevas que o tédio arrasta
Você no meio da noite resgata
Este poeta que agora inspira.

domingo, 5 de outubro de 2008

Hay Kay


A solução para essas almas perdidas
A andar por uma noite eterna, sem a luz do dia.
É cegá-las de rum
E embriagá-las de poesia.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

ONDE ESTÁS?


Onde está você, entre as pessoas da rua
Onde está você no meio dos anjos, nos risos do pecado
Onde porventura, está tua aventura
Que possa deixa-la em paz, se assegurar

Onde está no meio nos carros,
No meio dos gritos de guerra,
No meio das trevas dos homens mais bravos.
Onde estás no meio da idéia primeva

Onde andas, onde tropeças
Que ruas, passarelas, que guetos
Vão te pregar mil peças
Para aprender tudo com dor, na dor em segredo

Onde tua lágrima cai?
Por quem tu perde as noites
Por quem se põem a pensar
Enquanto esse vil poeta cala, ao passo que recebe os açoites.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

LAMENTO


Além, muito além das fronteiras da alma
Sonho eu com este ar de liberde.
Levado pelo minuano e pelas maresias açoitadas
Por este mar de poesia nos fins de tarde.

Além, bem posterior a realidade
Faço eu fronteira entre as utopias
Pestanejo sobre este territótio do medo
Sobre este perigo que corrompe as almas...

Pelo visto, é disto que somos feito.
A sedução do sonho e o grilhão medonho do medo,
E a mania da densa mediocridade.

Pois muito além do próprio sonho, estou eu.
Aboiando com o berrante da poesia parte minha que se projeta,
E lamentando a que por medo ficou sentada vendo o fim da tarde.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

MULHER "CONTEMPORÃNEA"



Anda mulher entre as sombras dos muros
Nas sombras dos vórtices, em vendavais
Anda mulher com alma em monturos
Sobre as sombras de homens boçais

Anda mulher com o ventre em fogo
Grávida de uma idéia que gera meus ais
Anda mulher, nasce de tí o novo
O novo que não haverei de olhar jamais

Anda mulher teus passos sem poesias
Deliras em mundos opacos aos cacos a bradar
Não pairam em teus ouvidos os sons dessas liras
Que inspira um tormento para dele sarar

Anda mulher por bússolas estranhas
E em tuas entranhas jaz perdidos olhares sobre o cais
Nadam e se afogam tuas façanhas
Sobre a verdade que em tua boca sempre jaz

Chora mulher, a lágrima trêmula em tua face
Escorre pelo seio que arfa sem fôlego, sem paz
Tremem teus nervos, teus ossos de aste
Para que finalmente caia pelos atos que faz.

sexta-feira, 12 de setembro de 2008

DIVAGAR


Nas ruas de Turim, nas noites do Cairo,
Eu que, aprendí nas boemias argentinas
Uns tangos salietes como se diz em Recife,
Dancei aos pés da esfinge que, por sinal nem finge não gostar de mim...

Eu, que apontei o dedo na cara da lua até o infinito, que espremí aquelas espinhas de muito antes de vocês hoje...chamarem de crateras...

Gargalho ainda com a goela aberta para a brisa que carrega os pecados das portas dos meretrícios que herdei do inventário dos lisos que meu pai deixou-me...e ele disse: são todos vossos, e, bêbado, assinou com um graveto nas areias do antigo gesso, aqui mesmo no Crato.

Só eu que gritei teu nome secreto por tua própria voz,
Só eu que vejo as jóias, as "pratas" brilhantes em teus dentes menina...
Só eu que ponho minhas patas nestas nossas noites dementes?
Só eu que ando dormente apesar dessas dores infindas!

PASSOS



Nos maus caminhos que a chuva chora
Planto os meus passos sobre o chão molhado,
Sobre o cheiro do barro vermelho, do estalar dos galhos.
Em rumo incerto, fugir de dentro de mim...de dentro de mim...de dentro de mim...de dentro...

Andar esquivo mas saber o Norte,
Ouvir campinas, trinar canários.
Pular mil cercas, gozar cenários,
Apesar de o peito caminhar para morte...ca-mi-nhar!!!

E transpor fronteiras, fundir-se em rios
Perder-se em verdes brilhantes, encarar bicos, bigodes, novos semblantes.
E assim, depois de ser rio, vento e pássaro...

Voltar aos passos pelo caminho errante
Já não são risonhos os cânticos, já são tão cinzas os verdes,
Já foram mais sutis as matas...mata-me, tão cansada de mim, mata-me sem tiros de festim, mata-me sem tiros...sem tiros...
Leva-me o riacho manso, leva-me a correnteza forte.
E em cada rio vai um pedaço de mim,
Em cada sol ao por-se no Norte, ao por-se no Norte,
Vai um pedaço de mim, um pedaço de mim...